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Use: é de graça III

Houve um tempo em que eu podia falar sobre a gratuidade quando desejasse e de maneira até mais espontânea. Hoje é diferente, claro, e a espontaneidade vai ficando mais calculada. Até que a aparência calculada se confunde totalmente com o gesto gratuito. Não sei se o nome disso é cinismo nem se de fato designa uma prática desagradável. Talvez não seja, e calcular e agir correspondam às duas faces da mesma moeda.   

A gratuidade, essa qualidade que admiro cada dia mais, não se encerra depois do ponto final. Dizer que qualquer história segue depois do ponto final é um clichezinho, eu sei, mas é que com o gratuito isso acontece de verdade. É fácil identificar os modos do gratuito. Continuidade desinteressada, ausência de pequenas intervenções projetadas dias ou até meses antes do ato.
Mas o que é o gratuito?

É tudo que dispensa obrigações, explicações, salamaleques – o não gratuito é, portanto, tudo que exige uma porção extra grande de energia e paciência, mesuras, protocolos e uma argamassa especial que mantém um sorriso arreganhado por até 12 horas (ideal para reuniões mais longas).  

E tudo isso parece elogio da espontaneidade. Não é. Quer palavra mais ingrata que essa? “Fulano é tão espontâneo.” Pior que ela, apenas “criativo” e derivados, empregados sempre com essa intenção falsamente perspicaz de traduzir os desenhos infantis reunidos num caderninho ou a nova configuração dos móveis na sala.

Frequentemente as pessoas confundem o gratuito, que é outra maneira de falar do banal, com o “de graça”, outro nome para barato. O gratuito não é barato nem fácil: é prazeroso, inútil, mas pode ter um preço elevado. É diferente do barato, cuja razão de ser está no valor, normalmente abaixo de um patamar estipulado por alguma norma monetária. O barato pode sair caro; o gratuito, nunca.

E se paro por aqui é apenas porque a história que pretendia contar foi aos poucos deixando de ser gratuita para se tornar barata.

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