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Pôr do sol em Marte



E o que dizer do pôr do sol em Marte, o planeta vermelho, o último da região telúrica, o mais próximo da cordilheira de resíduos estelares? Marte, refúgio sideral, Pasárgada dos desajustados, montículo de nada, anexo sem serventia, grande balcão de negociantes fantasmas. Marte, uma Terra que não deu certo, sem aprumo, sem eira nem beira, sem ministério nem mistério. Marte, a locomotiva solitária de sonhos interrompidos. 

O maior cânion, o maior vulcão, a maior varanda desabitada do sistema solar. A grande promessa não cumprida do turismo intereslelar. O único deus da guerra a nunca ter esmagado sequer uma formiga. Vermelho, distante, confuso, ambíguo, atmosfera irrespirável, solo pedregoso, vegetação inexistente.

Ainda assim, uma ida a Marte valeria qualquer pôr do sol terráqueo, uma passada por Marte e daria todas as tarefas por encerradas, uma escapada a Marte e quedaria satisfeito ao final do dia, cansado da gravidade, da preocupação com neutrinos, da conta de internet, das segundas vias de RG, das oscilações no preço do tomate, dos juros exorbitantes, do encarecimento do videogame, do leite diluído em água oxigenada, da escada rolante enguiçada, do homem empalhado dentro do carro com ar-condicionado, da cerveja quente, do tira-gosto sem gosto, do empastelamento da amizade, do elogio barato, da crítica falsa, da indiferença calculada. A isso tudo eu responderia: Marte. 

Marte sem salão, sem pista de dança, sem bilhete de regresso, sem caderno de empregos, sem custo-benefício, sem aferição da pressão arterial, sem IMAX, sem gôndola, sem produtos orgânicos. Imitando o poeta, eu diria: meu planetinha. Ocuparia lugar de destaque no panteão marciano. Fundaria seitas, inauguraria revoluções e contrarrevoluções, situação e oposição, estetizaria a paisagem de Marte, criaria para Marte uma cinematografia, uma literatura, uma tradição dramatúrgica, uma cultura, uma subcultura, uma incultura e, principalmente, uma pornografia, que lá gozaria de status divino. 

Talvez falte a Marte um Darth Vader, um Skywalker, uma Entreprise, um C3PO, um blade runner, um caçador ordinário, um Tinto Brass, um Bradbury. Enfim, um cronista das miudezas marcianas, alguém que cante a vida no rincão alienígena com toda a sua riqueza de cores, fale do Marte profundo, das diferenças no falar e no vestir, no comer e no dormir, sem esquecer jamais do nordeste de Marte, do hemisfério sul de Marte, do que ainda resta das calotas, das regiões abissais, dos buracos e dos entregadores de pizza, que em Marte talvez sejam ainda mais ousados e ferozes que os daqui. Algo mais que uma Curiosity.

Sem nada disso, porém, que miséria é Marte. Sozinho, agônico, em guerra consigo mesmo, arrancado da rotina apenas por colisões sem grande magnitude. Os grandes asteroides o evitam. Os buracos negros se afastam. Mesmo a irradiação chega lá a muito custo, depois de varrer a superfície de outros três planetas. 

Marte, vítima da curiosidade robótica de uma maquininha fabricada para escanear friamente rochas, lagos, mares e ventos e, de posse de tudo que se possa saber de outra pessoa (outro planeta) sem, contudo, travar contato mais íntimo, afiançar: sim, já houve vida em Marte; sim, é possível que haja novamente; não, ainda vai demorar.

Pobre Marte. De todos os astros já vistos e esquecidos, o mais desgraçadamente fotogênico, o mais ridiculamente vizinho, o mais tristemente sozinho. Duvido que essa tenha sido a vida que Marte pediu a deus.

E pensar que ainda leva 687 dias para arrastar essa carcaça ferruginosa ao redor do sol... 

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