Pular para o conteúdo principal

Antes de sair de casa

Antes de sair de casa, corrigiu a postura e checou o celular, vasculhou a carteira a ver se tinha dinheiro suficiente para bancar as provisões do dia, varreu o apartamento como uma grande angular cartesiana, dispôs cada móvel no lugar não onde estava, mas onde deveria estar, encarou o boneco do Homem de Ferro, confirmou se a luzinha vermelha da tevê estava acesa (estava), se a porta da geladeira fora fechada, se a colcha da cama havia sido feita, se desligara o computador, se a torneira pingava, se carregava caneta, cigarro, isqueiro, mochila, se dentro da mochila havia jornal do dia, papéis, bloco de notas, mais canetas e uma lapiseira, presente quando fez 25 anos.

É um procedimento normal, tentou se convencer. Antes de sair de casa, caminhar duzentos metros e acenar para uma das cinco linhas de ônibus que o levará até o trabalho, onde o esperam um computador, uma cadeira, um copo e um telefone, é procedimento padrão certificar-se de que tudo que havia empilhado continuava como estava, camada sobre camada, objeto contra objeto, o guarda-roupa virado para o canto, a mesa empoeirada, os pratos à espera de sabão, a fileira de livros organizados segundo a urgência que impõem: primeiros os da semana, seguidos dos livros do mês e os do ano. Do que ainda resta do ano.

Antes de sair, girou a chave. Emperrada. Com uma pressão leve, que produziu um estalo, trancou tudo que tinha dentro da casa. Em seguida, alinhou o tapete à porta. O vento assobiou nas tubulações de energia, cabeamento de internet e telefone.

Era um zumbido tranquilizador. 

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...