Pular para o conteúdo principal

Personalidades

Duas personalidades que vi recentemente na livraria enquanto tomava café de sete reais e comia crepe de dez reais.

Personalidade 1: a coleguinha de nome Simone ou Simaria (uma das duas, porque são irmãs e realmente parecidas) lia VOCÊ PODE SE TORNAR UMA PESSOA MELHOR. Estava acompanhada de: um bebê muito lindo e um cara bem fortão com barba rala meio afeminado que tinha tudo para ser o pai da criança embora bem lá no fundo, por puro preconceito ou sei lá o quê, ninguém acreditava que fosse.

Personalidade 2: Auto Filho, ex-secretário de Cultura do Estado, agora mais velho e dono de uma barriga que avançava sobre a mesa na qual descansavam dois livros e uma xícara de café. Auto lia MARX, que, por coincidência ou não, eu havia folheado pouco tempo antes na gôndola de entrada da store. Não pude deixar de reparar naquilo.

Cumpre dizer que, nas duas ocasiões, o celular das personalidades tocou, o da coleguinha tranquila mas insistentemente, o de Auto Filho abertamente histérico, o que não nos permite concluir que os muitos anos dedicados aos estudos do marxismo tornaram o professor de filosofia mais ou menos imprevisível ou que a coleguinha em questão haja decidido, contrariamente ao que sugere o programa estético da banda Forró do Muído, investir nos aspectos minimalistas do cancioneiro popular.

O fato é que não consegui estabelecer qualquer relação entre a música dos telefones e a missão existencial a que cada uma das personalidades ali flagradas se via intimamente vocacionada. 

Missão existencial essa que, para ser bem honesto, não sei precisamente qual é. 

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...