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Apenas uma vaga ideia

Aceitei o desafio e tentei imaginar uma música sem fim, uma música cujas partes se sucedessem de tal maneira que não fosse possível afirmar quando terminam nem acabam, espiraladas em uma sequência de sonoridades agradavelmente indistintas, que, somadas, produziriam uma sensação de conforto, de incômodo, alegria e tristeza, culpa e misericórdia, uma sensação também dilatada, esticada como ficam esticadas em ângulo raso as redes de armar precariamente atadas de uma parede a outra sem o auxílio de cordas ou correntes.

Era com isso que parecia a música, superfície plana de tecido cru limitada em todas as direções por uma noção fantasmagórica de que o tempo passa devagar, o tempo conta a nosso favor se de repente o enganamos? Rede aberta que não se curva sob peso algum? Um pula-pula para adultos? Consulte a memória.

Gostava de imaginar o tempo assim: infantil e ingênuo, não esse senhor empedernido e solene proprietário de todas as respostas. Gostava de imaginá-lo um tolo a quem qualquer um passasse facilmente a rasteira, levando-o ao chão. Mas isso é um assunto pra conversar depois.

Tão logo começou a tocar a música, entendi que o propósito, se havia um, era enganar o que se desagrega, e foi exatamente aí que estalei os dedos e sorri. Porque me descobria simpatizando ainda mais com a até então vaga ideia de uma música que se propaga sem meio e se prorroga sem promessa.

Está claro que a música sem fim é, como todo o resto, miragem que inventamos para deleite particular. 

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