Pular para o conteúdo principal

Wilson, o escrotinho


Depois de ler Wilson, de Daniel Clowes, fiquei alguns minutos pensando sobre as razões que levam uma pessoa a simpatizar com a escrotidão, que é uma maneira de viver - nem pior, nem melhor.

Há um lado bom e um ruim na escrotidão. Provavelmente há mais lados bons e ruins, e outros que não são exatamente bons ou ruins, mas misturados. Para efeito didático, fiquemos apenas com os antípodas, o que resume bem toda a épica aventura humana e facilita a compreensão.

Embora pouca gente perceba, um sujeito escroto é utilíssimo, essa é que é a verdade, e nisso reside a fatura positiva. Por razões diversas, as pessoas tendem a ser dissimuladas. Não é que sejam mentirosas, não concluam precipitadamente. Digamos que, ao mirar benefícios, a maior parte de nós tenha por hábito expressar algo parcial ou totalmente contrário ao que pensa. Para muita gente, o nome disso é “habilidade social”.

É aí que Wilson entra em cena. As ferramentas de trabalho do personagem resumem-se a uma só: não-participar.

Imaginem todas as esferas de interação social que mobilizam a vida: família, casamento, trabalho, escola, igreja etc. Wilson não participará de nenhuma. Pior: dia após dia, demonstrará a fraude onde quer que haja fraude. Quem de nós suportaria a tarefa por mais de uma semana?

Wilson é um filho da puta, não é preciso ir muito longe para admitir isso. O que causa surpresa é que nos sintamos tão próximos dele - tão próximos a ponto de sentirmos saudade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...