Pular para o conteúdo principal

Tipos modernos: o 'tuiteiro influente'

Aclamado evento organizado por uma agremiação de 'tuiteiros influentes'. Fortaleza, Náutico, 1928.

O que faz, como se comporta, o que lê e, mais importante, o que não lê um tuiteiro influente?

Acorda cedo, é madrugador, tem esposa e filhos, fuma, bebe, gosta de camisa regata ou prefere moleton, usa tênis, sapatênis ou sandália tipo Espedito Seleiro?

Tem cabelo curto, espetado, longo, escovinha, parafinado, alisado, castanho ou meticulosamente assanhado?

Come paçoca, pamonha, tapioca, canjica, queijo coalho e outros quejandos da gastronomia telúrica?

É vegan?

Urina sentado?

Quantas barras de cereal ingere por dia?

Tem intestino preguiçoso?

Faz polichinelo?

Veste-se com rigor, afeta modismos, é exigente, pechincha na hora de comprar?

Exibe acne, aparenta ter mais ou menos idade, tem tatuagem ou sua pele é virtuosamente despida de marcas?

Cultiva amantes, demora-se no banho, tem seborreia, caspa, é calvo?

Investiga as ranhuras do azulejo enquanto cogita viajar para a Argentina nas próximas férias?

Calcula com antecedência os gastos do mês seguinte ou, dispensando qualquer método previdente, senhor de sua própria temporalidade, paladino da aventura financeira doméstica, opta pela surpresa ante o montante que se anuncia à medida que os dias se precipitam no abismo do tempo que não volta mais?

Apresenta amplo leque de fobias? Reflete sobre o caos do mundo com regularidade e exatidão? Dorme sem escovar os dentes? O que acha do neutrino?

A triste e incontornável verdade é que não há resposta segura para nenhuma dessas questões.

O verdadeiro “tuiteiro influente” é um enigma social, um desafio acadêmico, um buraco negro dos estudos culturais. Recomenda-se, portanto, delinear o mais breve possível sua conformação mental a fim de que o restante da humanidade possa urgentemente utilizar-se do arcabouço (político, físico, psicológico e filosófico) de que se serve esse autêntico produto do novo século.

Salve o tuiteiro, salve as redes sociais, salve a pedra angular da vanguarda líquida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...