Pular para o conteúdo principal

A antiguidade da gente


Talvez não seja absolutamente necessário acostumar-se às paisagens, digo não necessário, mas natural, e isso acaba ocorrendo mesmo quando não se deseja. Penso no terreno baldio, nas casas que cercam, nas vizinhas e nos vizinhos, no choro do menino, nos pássaros e no som dos motores que cortam a avenida em direção ao centro da cidade, e penso também que nada disso integrava a paisagem de ontem e que talvez não faça parte da de amanhã, penso que logo ao chegar esse carnaval de vida estranha atiçava a gente, provocando também uma porção bem boa de tristeza.

E o curioso nasce mesmo dessa disposição contrária presente em qualquer coisa, duas forças morando o corpo, duas vontades indispondo-se em um mesmo rancho de sentimentos. Uma que quer ir, outra que deseja voltar.

Quando cheguei aqui, quis voltar imediatamente. Logo descobri: era a paisagem, essa coisa abominável que me assusta de tão desigual que é, que repele o que trouxe, condena o feito, o possuído, uma paisagem em riste, beligerante. Acontece que há o medo, o tempo, o medo e o tempo fazendo-se parceiros enquanto nada vem.

Agora, após o tempo, é como algo inteiro, sem distinção, uma continuidade do quarto e da sala, equivalência dos estados de espírito, e o outro, o que restou atrás, resta esquecido, sozinho, talvez animando o dia e a noite de outro, talvez solitário na espera de nova mirada que lhe devolva o mistério. Penso nisso ao corredor, enquanto fumo vendo as estrelas, como são minhas essas estrelas vistas daqui, tanto quanto nunca foram.

Mas o certo é que ontem, ao ver-me novamente confrontado com essa paisagem de antes, tornada comum por anos de convívio e incomum pela presença de outra, voltei a sentir aquele velho incômodo, Maria. Aquele de que lhe falei tantas vezes e para o qual jamais encontrei resposta, nem a procurei um segundo sequer, você sabe.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...