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Exercício I

Era uma fábula sem animais. A história de um amor, por certo. Uma mulher que amasse um homem e um homem que amasse uma mulher, mas, como elemento complicador, um recurso dramático de que invariavelmente lançam mão escritores, artistas, dramaturgos e cineastas, nem esse homem bem menos essa mulher soubessem de antemão que esse amor lhes seria útil, ou único ou finalmente que esse amor seria amor, posto que o sentimento é por definição resultado de uma vontade inexpressa, e as vontades inexpressas respondem por 87% de qualquer intencionalidade segundo apontam pesquisas na área.

A intencionalidade não pode ser confundida com a intenção. São como primas queridas que em outra oportunidade passassem em branco uma à outra. A intencionalidade é a intenção em estado de larva. A intenção é intencionalidade envelhecida.

Por exemplo: aplique à palavra “casa” a repetição por infinitos segundos. Logo ela deixará de fazer qualquer sentido. É um exercício de desmaterialização que as crianças e os velhos adoram. Assim sucede com “papel”, e com amor da mesma forma.

Podem perguntar: existe? Quem irá negar? Entretanto, isto é isto? De modo que esse homem, essa mulher, os dois amantes jamais teriam algo que flertasse com a certeza matemática, nem a certeza matemática é certa, nem o amor é certo, nem ambos saberiam o que remotamente governa o coração de quem lhes serve café da manhã na cama.

E isso jamais seria confundido com infelicidade, mas, antes, com amor.

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