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Mito, minto, minotauro


Quando o viu ali sorrindo pensou bem alto mas mesmo assim baixo “Com esse, não”. Em seguida, andou a seu lado. Riram juntos, caminharam longamente até não haver mais postes de eletricidade a contar, até que sozinhos num canto da rua a noite somente por testemunha trocaram papéis de bombom, cartas de amor e cochichos involuntários. Eram sós. E na mesa que imaginaram posta sem pompa, como sempre, apenas suco de laranja e bolo.

Então viram que passava das dez. Ela apanhou o derradeiro ônibus, ele regressou a pé, fez um trajeto danado até chegar à casa do avô. De tão cansada, ela dormiu logo. Não sonhou. Exausto, ele ficou acordado. Tinha ruas acesas em cada um dos olhos. Ambos não sabiam que as variáveis daquela equação imprevisível haviam subitamente confluído para o mesmíssimo gráfico helicoidal por obra do acaso.

Porque quase nunca há indícios de que choverá ou fará bastante sol, suficiente para purgar toda a sujeira.

E, por isso, passaram a acreditar firmemente, fechando os olhos com força: esse descaminho que nos trouxe até aqui na verdade não tem qualquer propósito senão o de embaralhar as trajetórias elípticas das esferas pulsantes. Resumindo: bem lá do alto, de cima do prédio da cidade entalhada há milênios na planície mais alta, de uma altura realmente amedrontadora, ninguém é mais que isto:

Dois pontos. E só.

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