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Quando, quando...

Quando ouvi tudo, entendi tudo. Você estava ali, sentada. E ele também. Você disse esperei tanto tempo, e, mesmo não ouvindo nada, mesmo não vendo nada, ele te beijou. E nessa noite você fingiu ter sono para não parecer insone, fingiu ter fome para não parecer faminta, fingiu normalidade mas escondia uma rajada de abelhas nos olhos. Nessa noite, você conta, eu não dormi.

E isso foi há tanto tempo. Agora, parece ontem. Tenho ciúme. Do caderno. Ciúme. Sei que você não viu nada, sei que não vimos, que o tempo passou, as cordas se romperam, as quintas-feiras, as segundas são tão diferentes, mas, mas, mas, pense comigo, o sentimento é tão estranho.

Tão estranho.

Tão estranho a ponto de não lhe interessar sobremaneira o que penso, ele vem e se aloja, vem e se hospeda, vem e se incrusta, vem e se enrosca porque do outro lado do balcão existe apenas eu. Eu. E eu, já disse inúmeras, centenas, milhares de vezes, quando estou assim desse jeito, assim sem defesas, assim repleto de muralhas que se esfarelam ao toque do vento, cercado por tormentas que se dissipam ao menor sinal de afago, você sabe bem que eu apenas sorrio e digo vem, deita aqui do lado.

E você deita. Deitada, destrói. Deitada, manobra exércitos ferozes. Deitada, envia torpedos que atravessam as regiões estranhíssimas do corpo. Deitada, comanda tropas cujos cavalos, cujas lanças, cujas armaduras são pó. Porque sopra, ganha os ventos e vira nuvem.

Deitada, apenas deitada.

E eu, que faço nessas horas quentes? Eu invejo. Invejo tudo que foi. Tudo que não fui. Tudo que não beijei.

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