Pular para o conteúdo principal

CTRL C + CTRL V


ATIRANDO COPOS DO TELHADO

INAUGURAL, E OS HIPOPÓTAMOS FORAM COZIDOS EM SEUS TANQUES MARCA A ESTREIA NA LITERATURA DE JACK KEROUAC E WILLIAM BURROUGHS, DOIS DOS PRINCIPAIS NOMES DA GERAÇÃO BEAT

HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA O POVO

Em 1944, Kerouac tinha alguns poucos anos além da casa dos vinte e Burroughs, um bocado a mais que ele, mas eram amigos e, como as figuras que viviam numa Nova York mítica, num mundo enfiado em guerra, conheciam um bando de gente estranha, junkie, viciados, homossexuais, drogados, prostitutas, famintos, a exemplo de Lucien Carr e David Kammerer, os dois personagens de E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques, primeiro romance dos autores de On the road (1957) e Naked Lunch (1959), respectivamente. Lançado pela Companhia das Letras, E os hipopótamos traz o sedutor qualificativo: primeiro romance escrito pelos pais da geração beat.

Will Dennison e Mike Ryko são as personas de William Burroughs e Jack Kerouac. Dennison é barman; Ryko, marinheiro. Eles se revezam na narrativa de E os hipopótamos. Emprestam sua voz a cada capítulo. Contam, a sua maneira, a história do assassinato de Kammerer, cujo corpo foi encontrado boiando nas águas do Rio Hudson. Homossexual quarentão, Kammerer foi esfaqueado pelo jovem Carr. Kammerer e Carr tinha uma relação mal-resolvida. Entre eles, havia pequenos terremotos, ondas sísmicas cujo alcance provocava abalos do outro lado do mundo. Carr queria ser marinheiro e viajar para a França. Queria sumir das vistas de Kammerer, que só desejava o amor do jovem amigo. Mas desejava isso ardentemente, cegamente.

Até ser morto. Kerouac e Burroughs foram os primeiros a saber que Carr havia matado Kammerer. Aconselharam-no a se entregar à polícia. Em seguida, escreveram a história, que ficou guardada debaixo do piso de madeira da casa de Burroughs por muito tempo. Não podiam publicá-la, ela revelava fatos da vida íntima dos amigos, atribuíam culpas, feriam suscetibilidades. Finalmente, veio a público. Estranho, o título tem relação com a notícia: também na década de 1940, alguns hipopótamos morreram num incêndio num zoológico dos Estados Unidos. Fato trágico, cômico.

Em E os hipopótamos, esses dois loucos escritores se dividem: encaram a tarefa de escrever a quatro mãos. E fazem isso de modo dessemelhante, costurando as vozes dos perdidos marginais Ryko e Dennison. Um, mais derramado, preciso, atento ao diálogo. Outro, mais frenético, espalhado, cheio de tiques. Lendária, procurada muitos anos antes de ser publicada, a história de vida e morte vira uma narrativa que emoldura a geração beat. Fala dos excessos, da apatia juvenil, das divertidas discussões filosóficas e dos porres gratuitos. Das modorras, dos medos, dos êxtases. É também o momento que marca o começo da relação entre Kerouac e Burroughs, um atestado do que viria a seguir: a trajetória de um heterogêneo grupo de escritores e poetas que se tornaram conhecidos como fumadores e aspiradores das drogas mais pesadas e autores de obras como Uivo e tantas outras. Uma geração demente e iluminada.

SERVIÇO:


E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques (Companhia das Letras, 174 páginas. R$ 34), de William Burroughs e Jack Kerouac. Tradução de Alexandre Barbosa de Sousa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...