Pular para o conteúdo principal

Você vem, você vai

Entendo que a vida não tem sido nada fácil. Sim, entendo. Tanto que nem vou dizer qualquer coisa. Hoje vou dormir sem reclamar de nada.

Ontem foi sábado. Bebi um pouco, comi bastante. Vi A VIDA DOS OUTROS. Fui dormir às três horas da manhã. Às quatro, precisamente. Perdi o sono. Isso tem acontecido com alguma regularidade. Mas mesmo não dormir direito tem um lado bom. Que lado é esse? Tenho lido bem mais. E pensado também. Geralmente ninguém quer saber de ficar parado pensando em qualquer coisa.

EU adoro ficar parado pensando em qualquer coisa. A propósito de nada, saio de órbita. O pensamento vai longe. E não volta. Fica amarrado à aresta de alguma estrela feita de acrílico.

É melhor tagarelar que pensar. Pensar faz mal. Crianças que pensam muito são estigmatizadas. Na escola, mas também no trabalho, na igreja, no clube. Sempre fui calado. Nas aulas, nos grupos. Hoje bem menos. Mas, de alguma maneira, vejo que tudo se mantém como antes. Tudo se mantém.

Tenho falado mais. Não sei contar piadas, mas faço as pessoas rirem. Quer dizer, odeio piadas, mas adoro o humor que vem de qualquer lugar do fundo da minha alma.

Que besteira.

Brigas de família atrapalham a vida da gente. Não sei, mas qualquer hora dessas vou até o cartório e peço para mudar de família. De pai, de mãe, de irmãos.

Menos de vó. A minha é minha e pronto. Gosto dela e ela de mim. Ontem mesmo ela me abraçou, me beijou e me abraçou novamente. Fazia um mês que não a via. Estava barbado, cabeludo e fedorento – a parte do fedor é mentira. Ela disse que não importava. A partir desse dia pus na cabeça que minha vó realmente gosta de mim. Quanto aos demais, não posso dizer nada.

Mas ia dizendo que venho dormindo pouco nas últimas semanas. É verdade.

Estou procurando tempo para ler MOBY DICK. Não tenho encontrado. Como cinema não requer tanto tempo, tenho visto bons filmes nos últimos dias. Vi O LEITOR, O LUTADOR E A VIDA DOS OUTROS. Vi também... Não lembro, mas vi outra coisa. Vi uma animação estúpida.

Volto outro dia. A semana promete.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Projeto de vida

Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...

Cidade 2000

Outro dia, por razão que não vem ao caso, me vi na obrigação de ir até a Cidade 2000, um bairro estranho de Fortaleza, estranho e comum, como se por baixo de sua pele houvesse qualquer coisa de insuspeita sem ser, nas fachadas de seus negócios e bares uma cifra ilegível, um segredo bem guardado como esses que minha avó mantinha em seu baú dentro do quarto. Mas qual? Eu não sabia, e talvez continue sem saber mesmo depois de revirar suas ruas e explorar seus becos atrás de uma tecla para o meu computador, uma parte faltante sem a qual eu não poderia trabalhar nem dar conta das tarefas na quais me vi enredado neste final de ano. Depois conto essa história típica de Natal que me levou ao miolo de um bairro que, tal como a Praia do Futuro, enuncia desde o nome uma vocação que nunca se realiza plenamente. Esse bairro que é também um aceno a um horizonte aspiracional no qual se projeta uma noção de bem-estar e desenvolvimento por vir que é típica da capital cearense, como se estivessem oferec...

Atacarejo

Gosto de como soa atacarejo, de seu poder de instaurar desde o princípio um universo semântico/sintático próprio apenas a partir da ideia fusional que é aglutinar atacado e varejo, ou seja, macro e micro, universal e local, natureza e cultura e toda essa família de dualismos que atormentam o mundo ocidental desde Platão. Nada disso resiste ao atacarejo e sua capacidade de síntese, sua captura do “zeitgeist” não apenas cearense, mas global, numa amostra viva de que pintar sua aldeia é cantar o mundo – ou seria o contrário? Já não sei, perdido que fico diante do sem número de perspectivas e da enormidade contida na ressonância da palavra, que sempre me atraiu desde que a ouvi pela primeira vez, encantado como pirilampo perto da luz, dardejado por flechas de amor – para Barthes a amorosidade é também uma gramática, com suas regras e termos, suas orações subordinadas ou coordenadas, seus termos integrantes ou acessórios e por aí vai. Mas é quase certo que Barthes não conhecesse atacarejo,...