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A morte e a morte de Elena Ferrante


 

A falsa morte da escritora italiana Elena Ferrante, cujo rosto não se conhece, é um desses eventos repletos de leituras, como se de fato obra romanesca.

Afinal, se alguém havia morrido (agora já se sabe que se tratava de uma mentira criada por um jornalista contumaz nesse tipo de invenção), quem tinha morrido, a personagem a quem se empresta o nome ou a autora que realiza o ato de empréstimo?

Até então, dada a morte como certa, a dúvida parecia simples: quem morre quando Elena Ferrante morre?

A questão não é apenas física, mas literária. A morte da autora da tetralogia napolitana e de tantos outros livros de sucesso encerraria um problema de fundo para o qual a literatura tem uma resposta e a vida, outra.

A morte suposta de Ferrante pode significar a morte de uma mulher, de um homem, de um homem e uma mulher, de um grupo de pessoas, de um editor, de um “ghost-writer” e por aí vai. Uma morte individual ou coletiva, mas em todo caso incerta, não situada num corpo que se reconhece e se identifica e ao qual se vela.

A morte, nessa hipótese, seria o ato final literário ou um gesto de extinção criadora ao qual se chega por vias artísticas. Ferrante morreria como uma personagem de ficção, como Lila ou Lenu, sem jogar qualquer facho de luz sobre quem havia decretado a sua morte.

A morte seria ainda um ato arbitrário em conexão com a trama de histórias que alimentam a sua literatura, também ela movida a desaparecimentos, a esgotamentos, a mortes sem morte, como em “A filha perdida”, que encena a quase morte de uma Leda que atravessa uma jornada extenuante até cair na praia.

Já a morte da autora seria o desvendamento, mas um desvendamento que se reveste de uma ilusão segundo a qual, achando-se o autor, encontra-se o significado da obra. O mistério da obra repousando na pessoa do escritor, que, agora morto, pode explicar em definitivo aquilo que pretendeu dizer quando vivo.

A morte decretada de Ferrante, seja a tradutora Anita Raja, seja qualquer outra, é uma tentativa desesperada de ler Elena Ferrante, um gesto oportunista de, matando-a, empreender a decifração de uma escritora que se recusa a estar no lugar da estabilidade, seja de identidades, seja dos parâmetros de escrita e recepção do que se convenciona como o romance contemporâneo.

Afinal, o projeto literário de Ferrante se constrói no entrecruzamento de ficção e real, num embaralhamento de chaves de leitura. Lendo-a, é impossível afirmar com segurança se se trata de obra autobiográfica ou fato puramente inventado.

Embora deixe sempre pistas de uma vida anterior em Nápoles, de uma profissão associada ao ensino de línguas e ao estudo da antiguidade (do grego, principalmente), Ferrante é ainda mistério, mesmo com tudo que se saiba a respeito da vinculação de seu nome com o de Anita Raja, a quem se atribui a verdadeira autoria por trás do pseudônimo.

Não assumida por ela, no entanto, resta a dúvida, em torno da qual (e contra a qual) a obra de Ferrante pode ser lida. Sob o ponto de vista da fruição e da apreciação crítica dos seus trabalhos, contudo, interessa pouco quem realmente vive essa autoria, se Raja ou qualquer outro atrás da máscara ferrantiana.

Ao leitor, à leitora, impõe-se sobretudo não matar Ferrante, mas vivê-la em seus livros, atendendo a seus pedidos sistemáticos de que a literatura se baste e que o autor seja dispensado desse papel – que ela encarara com fastio – de divulgador e promotor da própria obra.

A respeito de um de seus livros, numa carta a seu editor que faz parte de “Frantumaglia – os caminhos de uma escritora”, Ferrante declarou secamente que já havia feito o bastante por ele: “eu o escrevi”. Cito a passagem de cabeça, apenas porque ajuda a compreender o que é o ato de escrita e de leitura para a autora italiana.

Para ela, os dois gestos guardam relação íntima, de cumplicidade e entrega, sem que jamais a “verdadeira leitura” (muitas aspas nessa expressão) deseje ir além do que habita o território do escrito e do texto. No mundo de Ferrante, a fabulação é o único polo; o autor definitivamente está morto, mais ainda do que talvez desejasse Barthes.

Isso dito, convém reconhecer que, a despeito de suas reiteradas negativas quanto a oferecer mais do que meras migalhas sobre sua verdadeira personalidade, Ferrante vem sendo sistematicamente interpelada quanto a sua existência real e a sua vida material. A questão a persegue. Dir-se-ia que é inescapável em qualquer de suas entrevistas.

Pode-se dizer também que a leitura de sua obra é, em alguma medida, indissociável dessa procura pela autora por trás da história, como se buscá-la fosse parte do jogo de encenação que a própria escritora estabelece com seus leitores, numa forma de ampliação do efeito do literário – um prolongamento do ficcional sobre o real. Ferrante participa ativamente desse jogo, claro, mesmo quando o nega.

A vulgaridade da notícia de sua falsa morte, portanto, é uma maneira de querer implodir o sentido desse jogo, de desfazê-lo pela malícia, pelo mecanismo ordinário da fraude e da mentira, um dos temas sobre os quais escreve a autora em “A vida mentirosa dos adultos”, seu romance mais recente publicado no Brasil.

Matar o jogo da fabulação recorrendo-se ao expediente da cópia, como fez Tommaso de Benedetti, o jornalista que também inventou entrevistas com outras personalidades, está longe de se constituir como operação criadora ou uma trivialidade típica da vida nas redes. É um ataque do real ao ficcional.

Aqui, a falsa morte talvez se aproxime da quase morte de outro autor: Salman Rushdie, de “Os versos satânicos”, escritor britânico nascido na Índia que foi esfaqueado há alguns dias durante apresentação nos Estados Unidos.

Rushdie protagonizava um evento de divulgação e debate sobre o literário ao qual compareceu porque acredita que o jogo também se faz com a presença física no mundo real. Foi atacado no exercício da literatura, em meio a seu cenário, editores e leitores.

Sem pretender comparar a gravidade dos dois episódios – Rushdie foi alvo de uma tentativa de assassinato e ainda se recupera e Ferrante, de uma fake news, logo desmentida –, essas quase-mortes parecem ter em comum a dupla investida contra a figura do autor enquanto personagem cujo ofício é, em suma, a elaboração de outros mundos e o alargamento de horizontes.

É como se, contra eles, se tivesse abatido a estreiteza: num caso, do fanatismo, e no outro, do mundo como espetáculo.

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