Pular para o conteúdo principal

Tsunami

 

Passa das dez, a mãe envia uma mensagem de áudio. Está preocupada com a tsunami. E se a onda chegar aqui, pergunta, e se estiver dormindo, e se não der tempo de correr, e se, e se, entre divertida e preocupada.

Temos preocupações semelhantes. Não importa se as chances são remotas e nada disso vai acontecer. É a hipótese que assusta.

À noite, antes de dormir, penso no ponto mais alto do meu estado, da minha cidade, do meu bairro, e me pergunto também se chegaria a tempo de escapar, de não ser arrastado. As imagens daquele filme com o ator que faz o Homem-Aranha se reproduzindo em escala local, no lugar daquelas vias e hotel, as casas e ruas de Fortaleza.

Mãe, a senhora sabe que a probabilidade é pequena, eu li a matéria que fala com o cara do Labomar, ele disse pra gente ficar despreocupado, dormir sossegado, não vai ter onda.

Disse isso mesmo? Tento lembrar as palavras exatas e não consigo, mas o sentido é esse mesmo, confirmo, estou falando de cabeça, mãe. E lhe digo então que a tsunami é como a perna cabeluda.

Lembra da perna cabeluda, mãe, do João Inácio falando? Lembra quando a vó chegou em casa pressurosa depois de ouvir um locutor narrando um ataque dessa coisa que não era nem gente, nem bicho, nem nada criado?

Certo, filho, mas mesmo assim dá um medo. Dá, eu sei, o mesmo tipo de medo que sinto quando estou na janela do avião e olho pra ponta da asa. E ela está vibrando, tremendo com a passagem cortante do ar. Viajamos a dezenas de quilômetros de altura numa caixa de metal cujas extremidades ficam bambeando ao vento.

Filho, e esse vulcão? Estava dormindo e de repente acordou? Mãe, pra falar a verdade, não sei, tenho me concentrado apenas nas desgraças que já estão acontecendo no Brasil e não nas que podem acontecer, principalmente essas que são mais improváveis.

É, eu sei, todo dia é um problema, uma besteira que o presidente fala. Pois é, suspiro.

Mãe, mas já pensou se tivesse uma onda mesmo? A gente ia pra onde, Baturité ou pra casa em Tianguá? Qual é o lugar mais alto do Ceará, mãe?

A gente não sabe, então mudamos de assunto. Passamos a falar do fim de semana, do almoço, do pai, dos irmãos e depois de MMA.

Mas a onda gigante ainda está ali, se formando de noitinha, as pequenas ondas alimentando umas às outras, até que fiquem maiores e maiores, que é como acho que se alimenta esse tipo de fenômeno. Um acúmulo, e tudo logo se arrebenta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...