Há dias procuro um livro
específico que não sei qual é, mas a bagunça das estantes não tem ajudado.
Reviro as pilhas, inspeciono as lombadas, checo atrás das prateleiras
abarrotadas e reabro portas de armários há muito fechadas. Nada. Não está lá. É
um livro de capa fina, dessas que dobram e amassam facilmente e nas quais há
uma infinidade de marcas de dedos de todas as pessoas que manusearam o livro.
Se o folheamos, de dentro desprende-se um cheiro antigo, odor de mãos e pele e
objetos esquecidos, manchas invisíveis que foram se acumulando – uma de café,
outra de uma substância que não consigo identificar, mas que associo a
manteiga ou a algum produto gorduroso. Não recordo a história. Na verdade, não
mantive um fiapo de nada do enredo nem dos personagens, apenas a vaga noção de
que deveria encontrá-lo em algum ponto do quarto, entre as torres de pequenos
volumes nunca lidos que fui juntando e os que efetivamente li. Todavia, não é
fácil achar coisas esquecidas, e esse livro, pelo que sei, já deveria ter
aparecido. Sou bom nisso. Investigar rastros, mapeá-los até a origem e,
mediante algum esforço, identificar o ponto de partida. Mas, no caso desse
livro em especial, tenho falhado até agora. Apesar dos fracassos que se
sucederam, permaneço alerta, atento a qualquer possibilidade de que o livro
resolva aparecer por si. Uma hora, quando menos esperar, ele vai surgir ao lado
de uma revista ou sobre a escrivaninha, atravessado como um desses gatos que se
esticam no tampo da mesa antes de dormirem.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...
Comentários