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Livro secreto


Há dias procuro um livro específico que não sei qual é, mas a bagunça das estantes não tem ajudado. Reviro as pilhas, inspeciono as lombadas, checo atrás das prateleiras abarrotadas e reabro portas de armários há muito fechadas. Nada. Não está lá. É um livro de capa fina, dessas que dobram e amassam facilmente e nas quais há uma infinidade de marcas de dedos de todas as pessoas que manusearam o livro. Se o folheamos, de dentro desprende-se um cheiro antigo, odor de mãos e pele e objetos esquecidos, manchas invisíveis que foram se acumulando – uma de café, outra de uma substância que não consigo identificar, mas que associo a manteiga ou a algum produto gorduroso. Não recordo a história. Na verdade, não mantive um fiapo de nada do enredo nem dos personagens, apenas a vaga noção de que deveria encontrá-lo em algum ponto do quarto, entre as torres de pequenos volumes nunca lidos que fui juntando e os que efetivamente li. Todavia, não é fácil achar coisas esquecidas, e esse livro, pelo que sei, já deveria ter aparecido. Sou bom nisso. Investigar rastros, mapeá-los até a origem e, mediante algum esforço, identificar o ponto de partida. Mas, no caso desse livro em especial, tenho falhado até agora. Apesar dos fracassos que se sucederam, permaneço alerta, atento a qualquer possibilidade de que o livro resolva aparecer por si. Uma hora, quando menos esperar, ele vai surgir ao lado de uma revista ou sobre a escrivaninha, atravessado como um desses gatos que se esticam no tampo da mesa antes de dormirem.

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