Tem o caderno de rascunhos e notas soltas que utiliza para registrar também uma porção de ideias sem grande interesse, fica feliz se alguma lhe parece sensata, noutras vezes não, na maior parte do tempo sequer entende o que vai escrito, verdade é que até alcança esse gozo íntimo com a atividade, ainda que esporádica, prazer bissexto, gosto pequeno se comparado ao do doce de leite.
De qualquer maneira trata-se de prazer distinto e necessário, então insubstituível, recompensa assistemática, breve, sem a qual se torna intratável.
O caderno é um desses modelos famosos que escritores e jornalistas recomendam às fartas, crentes no poder de transmissão automática do talento e mesmo do gênio, grande bobagem, as folhas são macias, como são gostosas, a capa é dura, preta.
Ao menor contato com a pele as mãos costumam suar.
O mais importante vem agora, porém, do lado par do caderno registra com naturalidade fatos cotidianos, um pensamento no ônibus, por exemplo, nele exibe impressionante domínio narrativo e prodigiosa naturalidade.
Todavia, ao atingir o lado ímpar, que jamais se demora a aparecer, o bicho desanda, o traço fraqueja, a caneta pesa, a ponta porosa arranha a superfície outrora absorvente, e o que logo se revela é uma escrita de respiração atravancada, falsa, canhestra, avessa.
É, suspeita, um tipo bem ordinário de dualidade a que percebe nessas situações, dualidade que talvez reflita outra, ainda mais dúbia e vaga porque mais funda, elaborada enquanto constata de frente ao espelho a diferença que há entre os dois hemisférios do próprio corpo, que, caso fosse seccionado em partes iguais, vítima longitudinal, fatalmente apresentaria diferenças consideráveis.
As partes, por assim dizer, constituiriam metades apenas remotamente similares, e disso não poderia concluir grande coisa, exceto que o corpo não respeita a matemática mais básica.
Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...
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