Tem o caderno de rascunhos e notas soltas que utiliza para registrar também uma porção de ideias sem grande interesse, fica feliz se alguma lhe parece sensata, noutras vezes não, na maior parte do tempo sequer entende o que vai escrito, verdade é que até alcança esse gozo íntimo com a atividade, ainda que esporádica, prazer bissexto, gosto pequeno se comparado ao do doce de leite.
De qualquer maneira trata-se de prazer distinto e necessário, então insubstituível, recompensa assistemática, breve, sem a qual se torna intratável.
O caderno é um desses modelos famosos que escritores e jornalistas recomendam às fartas, crentes no poder de transmissão automática do talento e mesmo do gênio, grande bobagem, as folhas são macias, como são gostosas, a capa é dura, preta.
Ao menor contato com a pele as mãos costumam suar.
O mais importante vem agora, porém, do lado par do caderno registra com naturalidade fatos cotidianos, um pensamento no ônibus, por exemplo, nele exibe impressionante domínio narrativo e prodigiosa naturalidade.
Todavia, ao atingir o lado ímpar, que jamais se demora a aparecer, o bicho desanda, o traço fraqueja, a caneta pesa, a ponta porosa arranha a superfície outrora absorvente, e o que logo se revela é uma escrita de respiração atravancada, falsa, canhestra, avessa.
É, suspeita, um tipo bem ordinário de dualidade a que percebe nessas situações, dualidade que talvez reflita outra, ainda mais dúbia e vaga porque mais funda, elaborada enquanto constata de frente ao espelho a diferença que há entre os dois hemisférios do próprio corpo, que, caso fosse seccionado em partes iguais, vítima longitudinal, fatalmente apresentaria diferenças consideráveis.
As partes, por assim dizer, constituiriam metades apenas remotamente similares, e disso não poderia concluir grande coisa, exceto que o corpo não respeita a matemática mais básica.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...
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