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Caça-palavras

Ao abrir o dicionário ao acaso a primeira palavra que chuvisca na tela é “maléolo”, o que é maléolo?, logo me pergunto fechando o livro já desgastado de tanto uso e atirando-o novamente sobre a mesinha na qual adormecem os jornais da semana, o que pode ser isso, meu Deus?!, finjo excessivo interesse, excessiva concentração, excessiva vibração que se segue à tentativa algo desesperada de intuir, pela simples leitura daquela junção e encadeamento de letras, o que pode querer dizer maléolo, só então formulo teorias, tento significados, busco alternativas, arranjo possibilidades, uma espécie de mal anterior a todos os males que, ao longo da vida, se abatem sobre nós, seres humanos?, uma súbita e irrestrita falta de sentido cuja incidência abraça jovens até 24 anos, mas principalmente crianças entre seis e 12?, uma infecção dos alvéolos pulmonares?, um xingamento, afinal dizer-se “creio que se trata de uma pessoa maléola” soaria como “tenho minhas dúvidas se fulano é realmente um maléolo”, mas nada disso parecia convencer por muito tempo, ou eram extravagantes, ou não faziam jus ao enigma sonoro representado pela palavra.

E nessa atividade de resto improdutiva e vergonhosa consumi quase um quarto de hora, o suficiente para caminhar lentamente até o supermercado da outra esquina e comprar água, pão, presunto e uma pasta de dente, entretanto estava bastante claro que o exercício de imaginar o que quer dizer tal coisa sem que saibamos o que de fato ela é, esse exercício consiste em um procedimento injustamente subestimado. De modo que, ao final do tempo, felicitei-me por haver errado feio a cada tentativa de adivinhação.

Segundo o dicionário, “maléolo é a saliência óssea do tornozelo”, nada mais que isso.

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