Agora que começo o ano de fato é que me vem a dúvida, uma dúvida importante num ano também importante. Trecentésimo ou tricentésimo? Como se pronuncia 300 em termos de aniversário, quero dizer, com bolo e parabéns e essas coisas todas que dizemos e fazemos em épocas festivas? Não sei, então faço rápida pesquisa nesses sites que vão aparecendo sem que eu os procure realmente, consulto dicionários e comparo as respostas que a mente coletiva da máquina cospe no prato, tudo sem sair da página inicial do Google. Os caminhos sugerem que devemos escolher o que convier, ou seja, que tanto faz empregar uma ou outra, preferindo-se a que soar melhor, talvez, ou a mais fácil de escrever. Fico com tricentésimo não apenas porque soa melhor ou é mais simples, mas também por transmitir mais rapidamente o sentido do que pretendo dizer, que é essa ideia de três vezes um século, a idade que Fortaleza completa em 2026. Uma cidade de 300 anos, 45 dos quais eu conheço de perto por nunca ter ido embora...
Certo dia acordei de sonhos intranquilos e o Ceará estava irreversivelmente datacentrificado, ou seja, onde antes havia elegantes bairros gentrificados, sem um pé de pobreza, agora viam-se longos paredões com esses gabinetes mastodônticos e CPUs resfolegantes até mesmo de madrugada, ronronando sem parar. Mas não foi do dia para a noite, pelo contrário, esse processo se deu aos poucos, primeiro abocanhando o Pecém, essa Mordor dos povos tradicionais, e de lá avançando por Caucaia, o Vale do Silício que deu certo. Só então o amarelo-envelhecido dos tampos de mesa de escritório e a arquitetura mezzo barroca desses construtos se espalharam pela capital, numa espécie de distopia comemorada pelos gestores como gol de placa, capaz de virar a página de nosso viralatismo estrutural. De súbito, toda uma rede de farmácias precisou se desfazer de suas mais de 280 lojas na metrópole, cedendo seu terreno para o que realmente importava àquela altura: não mais tratar as enfermidades da carne e do es...