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Lockdown à cearense

Cearense não entende lockdown, e não é porque se trata de palavra inglesa, porque no estado temos a maior concentração de falantes do idioma fora dos EUA e da Inglaterra. Fica em Sobral, a poucos quilômetros da capital, terra de gente escolada onde todo mundo já nasce dotado de um repertório lexical de estudante do último semestre da Casa de Cultura Britânica.

Molecagem à parte, as dificuldades com o termo não vêm de sua origem estrangeira, tampouco da prosódia tortuosa, que faz a língua do gentio se dobrar numa ginástica exaustiva.

O problema está no DNA do nativo mesmo, avesso a qualquer ideia de confinamento, clausura, de tempestiva vedação de um fluxo, de proibição irrecorrível. Um caráter que rejeita essas noções de "não pode", "não faça", "não vá" – há sempre quem acha que pode, que faz e que vai, mesmo no pior momento de uma doença desgraçada.

Cearense entende que lockdown é um jeito de parar tudo, menos a conversa na calçada. Sabe que é medida extrema que visa a impedir festa e aglomeração, coisa tomada quando não tem mais jeito, mas não se vexa de ser flagrado num convescote em quina de muro ou num joguinho de bola no society da vizinhança.

Ou seja, é expediente radical, implacável, mas, aclimatado ao Siará Grande, acaba por se temperar com certo relativismo que lhe atenua os traços. Feito qualquer comida, é como se o filho da terra inventasse sua própria receita de isolamento rígido, acrescentando uma lata de creme de leite e umas bananas e jogando tudo no forno por meia hora. Parece que estamos fazendo a melhor coisa do mundo, mas é só uma gororoba.

Logo, no juízo do gentio, lockdown guarda sempre um cantinho, uma brecha, um fiapo de nada onde pode continuar a fazer o que sempre faz no dia a dia, porque, pra ele, o interdito vale pra todos no papel, mas não pro bonitão e pra bonitona no particular, no privado, na rua, no bairro.

O lockdown é da Zé Bastos pra lá, pensa o morador do Conjunto Ceará, ao que o da Barra responde: é da Leste-Oeste pra depois. Covid só pega na família dos outros, no bairro dos outros, com os descuidos dos outros.

Assim, o matuto sente-se liberado para comer um espetinho na esquina, tomar uma cerveja escorado no poste todo posista, bater perna na praça, levantar uns pesos no equipamento público, andar de bicicleta, ir num forró clandestino, reunir as amizades na varanda do apartamento. Tudo rigorosamente seguindo todos os protocolos, ou seja, nenhum.

O mesmo vale para a máscara. Aí é caso sério. Nem se houvesse sido criada expressamente para ser usada com o palmo de nariz à mostra, a gente veria tanta gente com a napa de fora. E olha que cearense tem nariz bojudo, usar máscara deveria ser razão de autopreservação pra maioria. Mas é justamente o contrário, o nativo se orgulha de exibir a venta.

É um negócio contagioso, eu diria. A máscara no queixo é o equivalente do capacete do motoqueiro carregado no braço. É o “tem, mas tá faltando” do dono do mercadinho quando a gente pede por folha de papel almaço pra fazer aquele trabalho de ciências no domingo de noite.

Mas vá dizer isso ao homem local. É um mundo de desculpa, de que sabe já disso, mas prefere viver nesse freestyle suicida, praticando uma roleta-russa de Covid, uma Ouija sanitária com a vida alheia, conjurando ao mesmo tempo todas as superstições à mão, numa brincadeira do copo coletiva, duvidando da gravidade de uma peste que já matou mais de 300 mil e vai continuar matando enquanto o bocó e a bocó se acham muito espertos porque estão desfilando, quando deveriam estar bem guardadinhos.

Lembro de uma época em que a gente arreganhava as portas e janelas de casa quando passava o carro da Sucam soprando aquela fumaça esverdeada. Era um tempo em que o povo acreditava que doença matava e que o melhor era colaborar com a ciência, nem que a casa ficasse empestada depois.

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