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Meu nome é Antonia (2)


De vez em quando, Antonia fugia, abria o portão e perdia-se no bairro, aproveitava uma brecha, a mãe que estivesse cortando a carne ou fervendo o leite, o pai que estava fora, a avó que acompanhava a novena, os irmãos distraídos com brincadeiras e eu deitado no sofá esquentando as tardes com sonhos de cabelos cheirando a creme Neutrox.

Eu a via escapar sem dizer nada, primeiro a porta e depois o portão que dava para uma área que meu pai usava para se exercitar. E, finalmente, a grade da rua, mantida sem cadeado por causa do constante ir e vir que demarcava a rotina da casa, a mãe que saía ou a vizinha que entrava, um amigo que chegasse etc.

Nessa época, o bairro era um imenso conjunto de casas semelhantes construído décadas atrás para trabalhadores que vinham do interior à capital à procura de vida melhor mas acabavam por se estabelecer tão ou mais precariamente, de maneira que cada residência se distinguia da outra apenas pela cor e às vezes nem isso, num padrão geométrico e de paleta que conferia ao aglomerado uma aparência labiríntica por natureza a quem fosse de fora, sobretudo a alguém como Antonia.

Meia hora depois, sem sobressalto, a mãe dava pela falta. Dirigia-se até o portão, não me perguntava se a tinha visto, e, as mãos em cone, gritava por seu nome, primeiro a uma esquina e depois a outra. A quem passava, interrogava se por acaso não vira andando a esmo por aí uma mulher de aparência jovial, na faixa dos 30 anos, cabelos louros, pele alva e vestido esvoaçante, uma imagem fácil de se localizar por seu contraste com o monocramatismo do bairro.

Quase sempre um homem ou outro balançava a cabeça afirmativamente e indicava o lugar, aonde a mãe ia afogueada não porque Antonia tinha escapado novamente, mas porque talvez o feijão estivesse no fogo ou faltasse ainda temperar a mistura. Trazia a tia pelo braço como se conduz a um bêbado ou a um idoso desmemoriado. Antonia a acompanhava sem protestar, deixando-se levar até em casa e na casa, ao quarto, onde a mãe a punha antes de lhe ordenar que não saísse mais hoje, por favor, porque não era certo que, além do trabalho que os filhos lhe davam, ainda tivesse de cuidar de você, que já é crescida e tem seus próprios filhos. E, agora cruel, perguntava: onde estão seus filhos, Antonia, sabe por onde andam, sabe onde seu marido está e quem mora na sua casa?

Antonia não respondia. Em vez disso, piscava os olhos rapidamente e sorria antes de se pôr de pé e pedir para que armassem a rede porque de repente tinha sono e ela havia se cansado caminhando sob sol quente à procura de uma caderneta que havia perdido não se lembrava onde. E então descrevia a brochura, um livro de capa preta e folhas amarelas pautadas no qual anotava umas frases soltas. Pensou que o tivesse esquecido na calçada de uma rua parecida com aquela, mas se enganara, quando chegou não havia nada, nem caderno, nem planta, nem sombra. E daí ficou esperando que um conhecido aparecesse, um homem que ela recordava de ter encontrado numa festa uns anos antes de os meninos nascerem, era moreno, bonito, um tipo alto mas leve que lhe tomara para dançar num clube antigo do qual hoje não restou nada, exceto a fachada.

A mãe lhe dizia tá bem, Antonia, e armava a rede, agora fique aqui, se sentir fome, me avise ou chame o Carlos que ele traz alguma coisa pra você, eu ouvi a mãe falar.

Mas Antonia não me pediu nada, dormiu por horas e acordou de noite dizendo que havia sonhado com o caderno e sabia onde o procurar.

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