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Do Leblon a Jeri: o Brasil barraqueiro


O que é o barraco senão a política por outros meios? Sua natureza, uma altercação física e/ou verbal, é a da relação conflituosa cujo desfecho é não raro as vias de fato, que, por sua vez, são por si mesmas um mistério. Afinal, por que se diz “de fato” de algo como as vias, que não admitem uma acepção assim tão preto no branco? Sabe-se lá.

Como solução política, portanto, o barraco tem se mostrado cada vez mais frequentemente uma chave resolutiva para o Brasil de hoje, barraqueiro por excelência.

É como uma resposta catártica, uma teatralização violenta do cotidiano em que os impasses do país se encenam à luz do dia ou da noite, mobilizando as paixões e os atavismos nacionais mantidos na camada mais superficial da pele tupiniquim.

Seja nas áreas comuns dos condomínios, nas pousadas litorâneas ou na rua, o brasileiro recorre ao expediente mesmo se não esgotadas todas as alternativas à mão civilizada: a conversa, o silêncio, a intermediação cautelosa e bem-vinda de outrem, o simples dar de ombros e procurar outro rumo, evitando-se a confrontação odiosa com o semelhante.

Não. Saltamos essas etapas e passamos ao que interessa, como convivas num aniversário que atropelam os parabéns e se engalfinham numa luta encarniçada pelas coxinhas. Assim, driblamos as preliminares e mergulhamos de cabeça no buraco negro da ferida aberta que é o enfrentamento, o olho no olho, o “ground&pound” social. Em resumo, uma UFCização da vida.

Há quem diga que estamos mais irascíveis, irritadiços, mais esgotados e por isso raivosos. E então atribuem as causas dessa suscetibilidade à pandemia, que confinou a todos por longos oito meses, durante os quais começamos a nos portar como crianças que não dormiram e esperneiam, arrastadas pela manga da camisa pelo chão frio do shopping por adultos infantilizados e constrangidos.

Mas talvez não seja apenas isso. Talvez a doença tenha sido não a causa, mas o pretexto, o estopim, a desculpa para que esse substrato violento emergisse ao natural, no espontâneo de todo dia.

Mais que política, o barraco é nossa poética, nossa metáfora organizadora de sentido, ao lado do carnaval e do futebol. Do abuso da policial no hall do hotel de Jericoacoara ao desfile da dondoca de biquíni pelas ruas do Leblon, passando pela carteirada do desembargador que se recusa a seguir um decreto sanitário, esse fenômeno traduz um ethos contemporâneo que revisita o arcaico das relações em sociedade e expõe o veio de autoritarismo e mandonismo.

Não é casual que o espaço do barraco seja preferencialmente esse do fluxo VIP, da circulação do dinheiro e da produção de experiências exclusivas em que frequentemente o subalterno (o guarda, o empregado, o garçom, a recepcionista) tem de se valer da força de uma regra comum – uma norma coletiva – para enquadrar o desviante, aquele para quem nenhuma regra importa e nada se lhe pode cobrar.

Daí que a máscara de proteção esteja no centro desse “bafulê” nacional (como diria João Inácio Jr.). Item mínimo, o pedaço de pano e seu uso profilático igualam a todos, ao menos no que diz respeito a sua obrigatoriedade. É, portanto, um signo de coletividade, de que partilhamos a mesma arena e, a despeito de qualquer privilégio, cumpre vesti-la.

Para essa gente cheia de empáfia e alma engordurada que povoa os paraísos litorais e urbanos, a recusa à máscara é apenas outra forma de dizer: “sabe com quem você está falando”?

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