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Corpos vegetais

 

No parque, grupos de pessoas mascaradas, um casamento se realizava enquanto ao lado um rapaz estendia a toalha e dispunha sobre ela garrafa de café, torradas, um recipiente com bolo e pão, em torno deles outros se agruparam, uma mulher com tatuagem na canela e cabelo grisalho, uma menina, um homem e um cachorro muito educado e elegante cuja consciência de si e dos seus atos parecia superar a minha quando tinha 16 anos.

O parque inteiro já tomado por formações do tipo ou variações, famílias de bicicleta, famílias se exercitando, famílias deambulando, famílias com caras de enfado ou excitadas ou já idosas à espera sabe-se deus do quê. Famílias de plantas e árvores cujos galhos e troncos estavam ali muito antes de nós.

Andamos, brincamos, foi divertido. Fotografamos o tronco de uma árvore e depois outro, por que não fazer disso uma série?, eu perguntei, afinal a rugosidade, o padrão de cascas, a pele lisa ou áspera das imagens que capturávamos eram uma espécie de montagem serial não aprisionada ao espaço museológico, como num jogo em que precisássemos adivinhar o sentido daquelas marcas impressas, os nós dispostos, uma construção indecifrável, uma quina que se encaixasse noutra e por aí vai, as árvores indicando caminho ou embaralhando caminhos.

Árvore-texto, eu pensei, já de antemão cansado da figura que havia criado, porque tinha esse problema cada vez mais intensamente, as ideias que me passavam pela cabeça desmoronavam muito antes de ganharem concretude, seja porque eram frágeis, seja porque eu era. Tinha um caderno, tenho esse caderno no qual coleciono ideias falhas.

Mas não aquela série de corpos vegetais, aquilo ainda me parece agora uma boa ideia, talvez porque não haja nela nada além de um esoterismo, de uma escrita ágrafa, de uma tentativa escancaradamente arbitrária de conferir sentido ao que não tem, concentrado unicamente na beleza, numa escolha livre de quaisquer justificações.

O grupo da mulher, do rapaz e do cachorro elegante se levanta, sacode os farelos de pão da toalha, recolhe diligentemente o seu lixinho e vai embora, numa movimentação coreografada, eu diria ensaiada, porque posso realmente imaginá-los na sala de casa com roupas mínimas repetindo teatralmente gestos que depois adotarão no parque.

O casamento já tinha terminado, crianças ainda corriam, ao longe vi um jogo de bola, um pássaro estridente pousou metros acima das nossas cabeças.

Era tarde, e também precisávamos ir para casa.

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