Levo horas assim, na preparação
do que virá. Tempo gasto tentando descobrir o que ainda não sei, tatibitate. Paro
e retomo. Depois ando pelo corredor, em seguida vou ao banheiro e acendo o
cigarro. Sopro pela janela a fumaça azulada, que sobe em espirais e se dissipa.
Cogito sair, mas aonde iria a esta hora? Não há lugar. É preciso inventar uma
geografia, mas isso também leva tempo. É custoso. Então planejo a viagem, Porto
ou uma cidade mais distante. Nápoles, quem sabe. Uma passagem. Dois anos fora
estudando esse tema sobre o qual
venho pensando – qual? É também uma abstração, coisa impalpável, matéria
quebradiça. Borrifo água nas plantas, que parecem sempre as mesmas. Não gosto
de plantas, prefiro os peixes. Detesto cachorros, tolero gatos. Simpatizo com
bichos esquivos. Salguei o macarrão, que agora está condenado. Caprichei no
azeite. Achei que teria dificuldade em retomar essa rotina de trabalho após 30
dias durante os quais tentei acreditar que deixar tudo pra trás levaria uma
vida inteira. Às vezes acordo de noite e abro a janela ou acendo a luz à espera
de nada. Madrugada, esquento o macarrão, que parece comestível. O tempo atenua
qualquer coisa. Comecei a escrever sem saber o que faria na linha seguinte, que
ideias teria de apresentar caso alguém perguntasse no que andava trabalhando ultimamente.
E, agora que comecei, percebo que tudo que diga ou faça assemelha-se a um nó,
entrelaçamento de cordas mediante o qual testamos a rigidez dos dedos. Ventava forte
quando reabri a porta, as cortinas infladas como a camisa descerrada de quem
cruzasse o deserto em plena tempestade.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...
Comentários