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Capítulo I: peixes, zumbis, infrapoderes



Há dias ou talvez semanas venho pensando na mesma história, que é uma história bastante simples, nela nada explode nem é abduzido, nenhuma motosserra separa a cabeça do restante do corpo de ninguém, não há zumbis, não por falta de tentativa, na verdade é uma história para crianças e acho que os zumbis ainda não foram aceitos entre o Lobo Mau, o Barba Azul e outros personagens infantis, talvez fique pra próxima, algo como Zumbis pra crianças – manual de sobrevivência. 

O que uma criança tem que fazer caso encontre um zumbi à toa andando pelas ruas? Fugir, correr, se fingir de morta, lutar, chamar a mãe? Conto depois, muito depois. Antes disso, quero contar a história que venho tentando contar há duas semanas.

É uma história simples e começa como um enunciado de questão de terceira série. Há dez peixes no aquário do Joaquim, um menino não tão esperto quanto gostaria de ser. Por exemplo, quando tenta mover objetos com a força do pensamento, falha miseravelmente, e se se esforça para andar sobre as águas da piscina do condomínio, não consegue dar dois passos sem afundar.

Assim é o Joaquim, sempre apostando, sempre perdendo. Se o sinal abrir em menos de dez segundos, a Fabiana gosta de mim, se cair mais uma gota d’água da torneira, vou ganhar uma bicicleta, se houver mais de 17 e menos de 42 feijões no meu prato, vou viajar no Natal e por aí vai.

Como se pode adivinhar, o sinal nunca fica verde antes do tempo estipulado pelo Joaquim, há mais ou menos feijões, a torneira seca tão logo ele se cale, e nada disso tem relação com falta de sorte, é apenas como as coisas acontecem na vida. E na vida o Joaquim não tem superpoderes, tampouco tem infrapoderes, que são ainda mais incríveis.

Pra quem não faz ideia do que possam ser os infrapoderes, eu explico: infrapoder é a rara capacidade de não fazer o que outras pessoas que se consideram normais fazem sem grande esforço, como tropeçar e cair, correr atrás de um ônibus ou subir na árvore quando der vontade, engolir um chiclete, arranhar o joelho, apontar o lápis sem se cortar e por aí vai.

Joaquim não tem portanto nem super nem infra poderes, mas tem poderes que a sua vó índia lhe ensinou,  como por exemplo xingar o filho do vizinho quando o filho do vizinho, mesmo sem fome, resolve morder o braço de outras crianças. Então nessas horas o Joaquim escolhe uma das palavras mágicas que a sua avó índia lhe ensinou e diz baixinho no ouvido do filho do vizinho, que para imediatamente de morder ou de espernear ou de fazer o que quer que esteja fazendo.

E se a professora lhe ordena com voz de ganso, conta pra tia como você conseguiu essa proeza, Joaquim, o Joaquim diz educadamente, usando uma das palavras difíceis que aprendeu com a mãe, “eu fui apenas persuasivo”.

A história que tenho pra contar, de tão simples, deu um nó na cabeça do Joaquim: o que aconteceu com os nove peixes do aquário que ganhou do pai? 

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