Pular para o conteúdo principal

Falando de calor


Desculpem, mas vou falar de calor.
Falar de calor é nosso clichê-basilar, nossa senha de conversação, funciona em qualquer espaço, qualquer tempo, irmana classes sociais e faixas etárias diferentes, portanto explanar sobre calor, academicamente ou não, é a chave mestra da sociabilidade, refira-se a calor e será prontamente compreendido, mencione a "sensação de chaleira" que cobre o corpo asfaltado da cidade e um rol quase infinito de gestos em frenético assentimento surgirá rápida e solicitamente.
Flanelinha entende de calor, vendedor ambulante, síndico, taxista, ninguém entende mais de calor que taxista, guarda de trânsito, galego, motorista de ônibus, pedestre, estudante, trabalhador autônomo, frentista, o cara que prepara o frango assado com linguiça e farofa, até o pessoal rico sofre com calor quando tem de descer do Corolla, andar até a entrada de algum restaurante ou quando, ao sair do shopping , recebe subitamente aquela lufada de ar morno, e é como se, pra sacanear suas vidas, o planeta arreganhasse as abas da bunda e liberasse gás diretamente em suas caras, roupas, relógios.
É mais ou menos assim que se sentem os ricos, os remediados, mas, conforme ia dizendo , o calor é algo que extrapola classes sociais, é democrático, onipresente, onipotente, é talvez a única forma de divindade, autoridade respeitada em todo lugar, se ele está nas ruas, ninguém sai, é objeto de conversas incessantes nas cozinhas, redes sociais e colunas de jornal.E
Embora maltrate pelo, cabelo e, principalmente, os nervos, o calor, convenhamos, é justo, e mais que isso, é judicioso. E sobre ele não há muito o que falar, além das bobagens de sempre, no máximo pespegar uma metáfora do tipo: cidade iluminada por 30 lâmpadas de 60 W de potência, cidade-maçarico, cidade-forno e quejandos.
Lâmpadas de 60 W produzem mais calor que luz, e isso não é bom.

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...