sábado, 24 de dezembro de 2011

Santa ceia


Ilustrando a postagem, mas sem qualquer relação com ela, wallpaper de Coragem, o cão covarde.

Acabo de voltar do Natal em família, quase nada diferente do que foi ano passado, todos reunidos em volta da mesa farta, dispensadas reza e oração, essas coisas que se interpõem entre nós e a comilança enfim, mamãe jamais ligou muito para religião, tanto que não fiz catecismo, papai também não, assim sempre pulamos a parte mais chatinha em que os convivas disfarçam sem sucesso o cheiro do peru indignamente arreganhado no centro da toalha comprada para a ocasião, nos abraçamos meio sem jeito e, nos 25 minutos seguintes, mastigamos bons bocados de carne temperados com Coca.

Penso que, com alguma variação, essa foi mais ou menos a ceia de Natal de todos vocês.

Ocorre que é possível rastrear e fixar então um esforço extra e desse esforço consanguíneo resultar uma prece ao nosso senhor, o rei dos reis, pai de todos nós, é o que dizem por aí há muito tempo, prece essa sempre puxada por alguém mais “espiritualizado”, algo que não aborreça os incréus tampouco desmereça a fé dos crentes no vingador dos justos.

Só então as bocas ruminam baixinho trechos de uma ave Maria empoeirada, antes um pai nosso, tudo cria do baú das recordações de infância e começo da adolescência, cantiga guardada a sete chaves por algum dos lobos cerebrais.

Cada um, disseram-me, tem o lobo que merece.

Mas, quero dizer, o melhor da festa natalina, a festa natalina mais rápida dos últimos anos, reconheçamo-lo, frugal em vez de farta, triste em vez de alegre, mas qualitativamente superior a qualquer outra se levarmos em conta o índice de espontaneidade envolvido no processo, apenas ao final de tudo e como que de repente atravessada por um raio de pensamento iluminado, Duda correu, melhor, saltou em direção ao quarto e de lá voltou com um punhado de papel nas mãos.

Eram cartas.

Imaginem que essa menina de seis anos, magricela e agora sem dois dos dentes da frente, essa menininha chacoalhando cabelos escreveu uma carta de presente para cada um de nós, adultos: eu, pai, mãe, irmã!

Só Deus sabe como estremeci de contente quando a Duda espatifou as cartinhas no chão do quarto, feito juntá-las todas em monte para somente depois proceder à distribuição. Tufão feliz.

Imediatamente também eu voei até a sala e exibi minha prenda, “mãe, para de comer e olha isto aqui”, mamãe disse “ela passou a madrugada inteira escrevendo – modo de falar – essa carta.”

As missivas da Duda consistiam em rabiscos de esferográfica azul que representavam os entes familiares, cada um dos quais bastante semelhante ao outro, nenhum dos desenhos atendendo a qualquer espécie de rigor de escala, mas absolutamente identificáveis quando encarados com bom humor e imaginação.

No meu desenho, por exemplo, Duda me excedia em tamanho, e seus cabelos mais pareciam ter sido hidratados em uma torradeira.

E foi assim o Natal, faço registrar em ata de cartório, um belo espetáculo de constância, exceto por Duda, a salvadora do meu reino.

“Titio, quando terminar vamos brincar de rrampiro?!”

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