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Deu no jornal


JODIE FOSTER SERÁ MINHA ESTRELA-GUIA

Francis Santiago

Ainda que irremediavelmente pretensioso, e sobre isso não incidia qualquer dúvida, o plano do escritor alcançava uma beleza matemática que só a mais rica engenharia dos dispositivos que governam sociedades secretas e teorias conspiratórias seria capaz de produzir. Era tão bonito quanto o encontro dos dois hemisférios perfeitos de uma bunda igualmente perfeita. Era tão bonito quanto o carismático esgar de uma Natalie Portman premida por cólicas.

Eis o plano: ganhar os três principais prêmios de literatura concedidos a autores em língua portuguesa e tornar-se vagamente rico, virtualmente famoso e fisicamente desejável, após o que poderia dar por concluída sua missão na Terra e libertar-se dos compromissos cristãos arraigados em sua alma paroquial.

É evidente que o tipo de beleza do planejamento em questão comporta analogias. Fiquem com uma delas: imaginem a garota que ouvia Pixies em 1996 enquanto o restante da turma batia palminhas e fazia passinhos ensaiados ao som de Exaltasamba e Só pra Contrariar. É disso que estamos falando, caro leitor, cara leitora. Beleza em conceito, nada convencional, misteriosa, algorítmica, inspirada em Lisbeth Salander e Jodie Foster (vide Taxi Driver): sonhar, planejar, executar.

Era como se houvesse um planeta tristinho de Lars von Trier fungando 24 horas por dia no seu cangote. Não seria fácil. Mais uma vez, o habilidoso manobrista sintático-morfológico estaria sozinho na parada. Amigos, familiares, ex-professoras de redação e ex-namoradas: todos lhe haviam dado as costas. Quanto muito, limitavam-se a murmurar conselhos mequetrefes. Um show de aleivosias, pensava o escritor, sem dar ouvidos àquela barafunda de patacoadas.

Ora, o escritor mostrava-se cada vez mais irredutível, absolutamente magnetizado por uma crença, tragado pela descarga de um ideal: demitir-se-ia do emprego, isolar-se-ia numa fazendola em Pacatuba, alimentar-se-ia da fé cega na potência criativa. Driblaria os anseios da carne, enterraria as unhas na espiritualidade. Uma única verdade habitaria sua mente: o Romance Premiado.

Romance para ganhar três prêmios, romance para arrebatá-lo do caldo anônimo das pesquisas do IBGE, romance para fazê-lo importante e, de quebra, restituir o status da narrativa na cultura moderna. Um romance que lhe franqueasse acesso irrestrito à fábrica de pecados do mundo.

O plano era assim, imodesto e pouco convencional. Então tinha, é verdade, um arzinho debochado, e é mais verdadeiro ainda que havia em torno dele toda essa áurea geek, apenas porque fora primeiramente rascunhado num caderno Moleskine num dos cafés da sua Raccoon City tropical. No fundo, porém, o que sustentava a epopeia do escritor solitário era a clássica tríade humana: dinheiro, sobrevivência, amor.

Mas tergiverso.

O estratagema proposto pelo escritor durante o intervalo da novela das nove horas compreendia fases, subfases, subitens, itens, macro e micro objetivos. Era ricamente ilustrado, cheio de notas de rodapé, referências e gráficos, passagens nebulosas, citações etc. Para pleno desenvolvimento, implicaria marketing multimídia, jogos de computador, teasers, perfis falsos nas redes sociais e outras ferramentas ainda em voga.

Uma parada dura, concluiu, magnânimo, o buço porejado, os olhos febris vasculhando o rótulo da lata de leite condensado à procura de senhas superssecretas.

Como resposta, ouviu da esposa e das filhas um muxoxo, que interpretou diacrônica e sincronicamente. Sem dúvida, leve discordância. Não ficaria aí: dias depois, a caçula, anjo de delicadeza, sugeriu que o pai pusesse de lado a ideia maluca, pedisse o antigo emprego de volta e passasse a se dedicar exclusivamente aos roteiros para leilões de gado nelore.

Foi o que o escritor fez.

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