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Por que sou feliz


Quer dizer: eu sou uma pessoa feliz. Não porque a vida tenha sido particularmente benevolente comigo. Sou feliz assim, de graça, acordo e, antes ainda do café da manhã, quando papai e mamãe se preparam para ir trabalhar e minha irmã junta os livros e calça os sapatos e veste a farda preguiçosamente, coloco uma música no rádio do quarto e cantarolo baixinho. Pode ser qualquer música, desde que trate de temas ou expressamente felizes ou alusivos à felicidade, mas não de maneira remota nem exageradamente cifrada. Prefiro que sejam apenas superficialmente indiretas as relações entre significante e significado.

Quer dizer que, em seguida, me enfio debaixo do chuveiro. “Felicidade”, diz a música, “é só questão de ser”. Era a que tinha escolhido naquele dia, uma musiquinha bacana de um cara legal que tem barba, usa camisa de flanela, toca acordeão (ou acordeom?), etc. Tem uma garota que é tipo a dupla dele, então os dois gravaram esse clipe, o clipe da música, numa dessas cidades humildes de interior. Tem uma ladeira, chove, as casas são construções que, embora evidentemente pobrezinhas, exalam vida e, por conseguinte, felicidade, e as pessoas que vivem nessas casas transparecem isso o tempo inteiro, transparecem a ideia de que a felicidade independe de a) dinheiro, b) educação e c) Twitter / Facebook.

Elas nem sabem o que é rede social, e são felizes assim mesmo.

Logo, penso cá comigo distante alguns quilômetros dessa cidadezinha, também serei. Sou feliz nos finais de semana, durante a semana, nos feriados, depois de acordar e antes de dormir, no trabalho, na faculdade, sozinha, entre amigos, em reuniões da empresa, sou feliz mesmo naqueles momentos em que qualquer pessoa minimamente normal se sentiria no direito e talvez até no dever de exibir uma carranca que não daria margem a dúvida, é infelicidade. Mesmo nesses momentos me sinto a pessoa insuportavelmente mais feliz do mundo, e não apenas: quero que os outros saibam também que estão ao lado da criatura momentaneamente mais feliz do mundo.

Conforme expliquei brevemente, trata-se de escolha, opção, vontade de potência, daquele tipo de escolha consciente: serei assim e todo o meu comportamento passará a ser regido por uma leia marcial, qual seja, a lei áurea da felicidade, constituída sob o fundamento maior de qualquer código ético e moral de uma comunidade, qual seja mais uma vez, o bem estar dos indivíduos que integram essa sociedade.

Dito isso, consumirei ícones de felicidade, produtos cuja essência transpire felicidade, conviverei com pessoas felizes e usarei cores alegres, que transmitam felicidade, fazendo questão de pautar as ações mais estupidamente comezinhas em níveis de felicidade que pretendo alcançar.

Admito: não tenho jazidas inesgotáveis da suprema felicidade, nem descobri a fórmula secreta que me conduz a esse “estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude estão ausentes” (fonte: Wikipédia). É um problema de que me ocuparei mais cedo ou mais tarde, todavia adiar também implica em felicidade, e, por agora, me sinto bastante contente e, confessemo-lo, feliz até, e isso é resultado do simples fato de haver prorrogado essa dor de cabeça o mais que pude.

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