
A OBSTINAÇÃO DO HERÓI
O LUTADOR (THE WRESTLER), DE DARREN ARONOFSKY, ESTRÉIA HOJE NO BRASIL TRAZENDO COMO GRANDE TRUNFO O TRABALHO DO ATOR MICKEY ROURKE, GANHADOR DE UM GLOBO DE OURO, DO BAFTA E FRANCO FAVORITO AO OSCAR
HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA O POVO
O herói está só. Sem novos contratos, sem cachês polpudos, sem aluguel da casa-trailer, sem família. Por vinte anos, sua carreira foi brilhante. Randy “The Ram” Robinson foi capa das principais revistas e jornais dedicados ao ofício de que ele se ocupa: a luta-livre ou wrestling. Mas, agora, a escadaria conduz ao abismo da solidão. É desse ponto que O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky, começa. Ele acompanha a queda do herói, seus derradeiros instantes de glória diante de um público que lhe devota o mais absoluto respeito.
Para viver o herói, Darren escalou Mickey Rourke, 53 anos. Para compor a trilha sonora do herói, Rourke convidou o cantor Bruce Springsteen, um velho amigo. Curiosamente, ambos, Springsteen e Rourke, conhecem perfeitamente o mito que narra a ascensão e a queda. Antes do filme, ambos viviam os seus infernos. Responsável por grandes sucessos, Springsteen não emplacava nada há algum tempo. E Rourke era praticamente carta fora do baralho. Alguma coisa mudou depois disso? Sim, alguma coisa mudou. Rourke e Springsteen superaram-se. O ator ganhou um Globo de Ouro. O cantor, também. O Lutador, um filme que trata do cotidiano dos homens que fazem o espetáculo de luta-livre nos Estados Unidos, conseguiu reanimar a carreira de dois velhos guerreiros. Um na música. Outro no cinema.
E assim a carreira de O Lutador tem início. Com prêmios, celebrações da imprensa, elogios mil ao trabalho de Aronofsky e ao de Marisa Tomei, que faz uma stripper decadente. Aliás, por essas e outras, pode-se dizer que o grande tema de O Lutador é mesmo a decadência. Porque Cassidy, a personagem de Marisa, também não é a mesma. Depois do filho, dançar perdeu a graça. E ela perdeu o viço. Os jovens que vão a sua boate tiram sarro da coroa, que tem peitos moles, cara de maracujá e cabelos ralos. A juventude não consegue enxergar a beleza de uma mulher como Cassidy. Por sua urgência, são imediatos. À semelhança de Randy Robinson, Cassidy passa maus-bocados.
Depois de estrear nos Estados Unidos no final do ano passado e de ser visto em festivais - como a 65ª Mostra de Cinema de Veneza, em que o longa saiu vencedor -, os louros da glória foram mesmo parar nas mãos de Mickey Rourke, cujo personagem, o wrestler Randy “The Ram” Robinson, encara dificuldades de toda ordem: financeiras, amorosas, familiares, profissionais. Financeiramente, não tem dinheiro sequer para pagar o aluguel. Amorosamente, não tem família, e o único ente de que tenta se aproximar repele o herói. Randy também enfrenta um fim de carreira doloroso – como todo fim de carreira. Ainda forte, mas não o mesmo de vinte anos atrás, o lutador quer se afastar dos ringues e da construção cênica que marca as lutas-livres.
Mas não consegue. Primeiro, porque está só. Depois, porque precisa do dinheiro. O herói vai cair. Ele sabe disso. Mas, antes de qualquer coisa, seu último ato de heroísmo é ficar de pé enquanto suas forças lhe permitirem. Mesmo ferido de morte, o herói insiste. E esse também é o grande trunfo de O Lutador: um ator que viu no drama de seu personagem a própria vida. Pugilista e ator, a trajetória de Rourke tem inúmeros pontos de contato com a de Randy.
Assim como Kate Winslet (O Leitor), Rourke está com uma mão no Oscar. No Bafta, o similar britânico da mais glamourosa premiação da indústria de cinema, o ator desbancou favoritos como Sean Penn (Milk – A voz da igualdade). O prêmio pode ser visto como prévia do que deve acontecer na cerimônia de entrega das estatuetas. Haverá surpresas? Talvez. Mas, havendo-as ou não, O Lutador projeta de vez alguma luz sobre o rosto de Mickey Rourke. Um rosto descaracterizado, repleto das marcas deixadas por cirurgias plásticas cujo propósito era consertar o que anos de socos nos ringues haviam produzido.
SERVIÇO:
O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky, com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry. 109 minutos. Estréia hoje.
O LUTADOR (THE WRESTLER), DE DARREN ARONOFSKY, ESTRÉIA HOJE NO BRASIL TRAZENDO COMO GRANDE TRUNFO O TRABALHO DO ATOR MICKEY ROURKE, GANHADOR DE UM GLOBO DE OURO, DO BAFTA E FRANCO FAVORITO AO OSCAR
HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA O POVO
O herói está só. Sem novos contratos, sem cachês polpudos, sem aluguel da casa-trailer, sem família. Por vinte anos, sua carreira foi brilhante. Randy “The Ram” Robinson foi capa das principais revistas e jornais dedicados ao ofício de que ele se ocupa: a luta-livre ou wrestling. Mas, agora, a escadaria conduz ao abismo da solidão. É desse ponto que O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky, começa. Ele acompanha a queda do herói, seus derradeiros instantes de glória diante de um público que lhe devota o mais absoluto respeito.
Para viver o herói, Darren escalou Mickey Rourke, 53 anos. Para compor a trilha sonora do herói, Rourke convidou o cantor Bruce Springsteen, um velho amigo. Curiosamente, ambos, Springsteen e Rourke, conhecem perfeitamente o mito que narra a ascensão e a queda. Antes do filme, ambos viviam os seus infernos. Responsável por grandes sucessos, Springsteen não emplacava nada há algum tempo. E Rourke era praticamente carta fora do baralho. Alguma coisa mudou depois disso? Sim, alguma coisa mudou. Rourke e Springsteen superaram-se. O ator ganhou um Globo de Ouro. O cantor, também. O Lutador, um filme que trata do cotidiano dos homens que fazem o espetáculo de luta-livre nos Estados Unidos, conseguiu reanimar a carreira de dois velhos guerreiros. Um na música. Outro no cinema.
E assim a carreira de O Lutador tem início. Com prêmios, celebrações da imprensa, elogios mil ao trabalho de Aronofsky e ao de Marisa Tomei, que faz uma stripper decadente. Aliás, por essas e outras, pode-se dizer que o grande tema de O Lutador é mesmo a decadência. Porque Cassidy, a personagem de Marisa, também não é a mesma. Depois do filho, dançar perdeu a graça. E ela perdeu o viço. Os jovens que vão a sua boate tiram sarro da coroa, que tem peitos moles, cara de maracujá e cabelos ralos. A juventude não consegue enxergar a beleza de uma mulher como Cassidy. Por sua urgência, são imediatos. À semelhança de Randy Robinson, Cassidy passa maus-bocados.
Depois de estrear nos Estados Unidos no final do ano passado e de ser visto em festivais - como a 65ª Mostra de Cinema de Veneza, em que o longa saiu vencedor -, os louros da glória foram mesmo parar nas mãos de Mickey Rourke, cujo personagem, o wrestler Randy “The Ram” Robinson, encara dificuldades de toda ordem: financeiras, amorosas, familiares, profissionais. Financeiramente, não tem dinheiro sequer para pagar o aluguel. Amorosamente, não tem família, e o único ente de que tenta se aproximar repele o herói. Randy também enfrenta um fim de carreira doloroso – como todo fim de carreira. Ainda forte, mas não o mesmo de vinte anos atrás, o lutador quer se afastar dos ringues e da construção cênica que marca as lutas-livres.
Mas não consegue. Primeiro, porque está só. Depois, porque precisa do dinheiro. O herói vai cair. Ele sabe disso. Mas, antes de qualquer coisa, seu último ato de heroísmo é ficar de pé enquanto suas forças lhe permitirem. Mesmo ferido de morte, o herói insiste. E esse também é o grande trunfo de O Lutador: um ator que viu no drama de seu personagem a própria vida. Pugilista e ator, a trajetória de Rourke tem inúmeros pontos de contato com a de Randy.
Assim como Kate Winslet (O Leitor), Rourke está com uma mão no Oscar. No Bafta, o similar britânico da mais glamourosa premiação da indústria de cinema, o ator desbancou favoritos como Sean Penn (Milk – A voz da igualdade). O prêmio pode ser visto como prévia do que deve acontecer na cerimônia de entrega das estatuetas. Haverá surpresas? Talvez. Mas, havendo-as ou não, O Lutador projeta de vez alguma luz sobre o rosto de Mickey Rourke. Um rosto descaracterizado, repleto das marcas deixadas por cirurgias plásticas cujo propósito era consertar o que anos de socos nos ringues haviam produzido.
SERVIÇO:
O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky, com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry. 109 minutos. Estréia hoje.
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