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Loucura de amor



Quero falar da loucura de amor, essa modalidade morta-viva que ganhou vitalidade em meio a uma doença que restringiu as relações, os contatos, o beijo e o abraço, deixando-nos tão carentes a ponto de tolerarmos que um alheio se poste à frente de nossa casa com um megafone em punho e nos deseje felicidade e amor às fartas.

Sempre fora assim; como o aniversário caísse no dia dos namorados, tratavam de unir o útil ao agradável, premiando-se duplamente.

A trilha sonora é José Augusto, escolhida porque naquele dia, naquele lugar, tocava essa música e não outra. Foi lá que se conheceram. E agora está ali, à janela, temendo pelo pior: que os vizinhos chamem a polícia para dispersar a surpresa, uma aglomeração de curiosos em formação na esquina para a testemunhar esse tumultuoso evento afetivo planejado com as melhores intenções, como costuma acontecer com os grandes crimes da humanidade.

Além de todas as perdas, a Covid preparou-nos mais essa. Fez reviver o pior dos anos de 1990, quando os namorados se presenteavam com caixas de chocolate e um vidro de perfume Biografia, cujo odor era possível distinguir a léguas de distância. O carro da loucura de amor é dessa época em que a cafonice era mais que estilo de vida, tal como como a ombreira e o cabelo com mullets: era um imperativo ético, assumido sem pudor e até certo orgulho.

E cá estamos, neste 2020 que não chegou à metade e já desejamos que acabe, tendo de conviver novamente com esse dado do passado recuperado não por escolha própria, mas porque outrem houve por bem endereçar-nos o Fiat Uno adornado com balões vermelhos e farol colorido, à frente uma pequena inscrição desenhada no capô: “O amor é uma coisa boa”.

O quadro é singelo, convenhamos. A cena toda composta por frações de uma brejeirice que comove. Não fosse ele tão ranzinza, estaria agora de garganta apertada, as mãos suadas e o peito arfante. Quem sabe chorasse.

Mas não é assim, e secretamente torce para que acionem o Ronda do Quarteirão, mesmo sabendo que não há mais Ronda, e o quarteirão inteiro esteja neste momento vazio de qualquer gente.

Eis que o homem do carro tira do bolso um papel. Uma conta, um boleto, um lenço?, tenta adivinhar vendo tudo do quinto andar do prédio. Não. É uma mensagem. Pior: uma mensagem romântica, com felicitações e votos. Limpa a garganta com pigarro antes de começar. E começa.

É longa, prefiro encurtá-la reproduzindo apenas o final: “Que seja eterno”. Final de tarde, quase noite. Uma luz coada de laranja arranha o horizonte, pintando-o de fogo, uma cor bonita quando se está em silêncio e não ouvindo a microfonia que vem de baixo.

Mas agora é adulto, e lida bem com esses pequenos infortúnios da vida. Sabe que a loucura e o amor de fato andam juntos desde os gregos, as mãos atadas e os destinos selados. E, nestas circunstâncias, qualquer manifestação do afeto é desde sempre uma forma de se mostrar vivo.

Despede-se do carro agradecendo pela experiência – é desse modo que descreve a si mesmo o “ocorrido”. Os condutores da máquina amorosa conferem num caderninho outros dois endereços por onde passariam para encenar esse transbordamento de paixão antes de finalmente estarem em casa, livres para fazer o que gostam mesmo: sentar no sofá e assistir a uma série de investigação criminal.

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