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Diário da quarentena (parte 3)



Começo a inventar distrações domésticas, como contar os feijões e os caroços de arroz. Primeiro apenas de dois em dois, depois de três em três e assim por diante, até que finalmente toda a despensa está etiquetada por data e número de grãos em ordem decrescente, tudo separado e organizado por cor e data de validade.

Obviamente há formas mais interessantes de matar o tempo em tempos de quarentena, mas talvez nenhuma tão eficiente no seu propósito de prolongar ao máximo uma atividade ao fim da qual será outra semana, talvez outro mês, quem sabe outra vida – uma semana, um mês e uma vida na qual não haja pandemia e todos estejamos enfurnados em casa.

Outra hipótese é a de reparar melhor no traçado do piso de casa, enganosamente simétrico, com hexágonos intercalados à perfeição, mas irregular, aqui e ali sobrando um espaço onde o pedreiro certamente precisou encaixar uma peça que faltava e para a qual não havia resposta prevista.

Assim como a pintura da parede do apartamento exibe neste momento toda a riqueza das suas ranhuras, demonstrando que por trás da superfície aparentemente branca e lisa preexistia uma camada de tinta oculta e desgastada que fora derramada por mãos mais habilidosas que as minhas.

Tudo isso aprendi nas últimas horas dos últimos dias, um estirão indiferenciado em que dormimos e acordamos monotemáticos. Aprendi a me deter em nada, demorando-me somente no fluxo e certo de que não me trapaceava, mas ajudava a superar o momento.
Então houve esse estalo: o que importa é o momento, como se um microorganismo de repente devolvesse a escala da humanidade, ameaçando-a com febre, tontura e falta de ar e empurrando-a ao que interessa antes que seja tarde: companhia, amor, o cuidado com os outros, a proteção dos mais velhos.

Aprendi a estar mais atento para o derredor, um mundo que eu via de relance ao chegar ou sair, que passava velozmente pela janela dos meus óculos e se fixava como borrão na paisagem da memória. A vida como um retrato dos instantes subitamente forçada a parar, uma máquina que não somente pifasse, mas se recusasse a funcionar como antes, deixando para trás o jeito antigo de fazer as coisas e afirmando na partida: esse mundo não existe mais.

O “corona” – permito-me certa intimidade com a doença depois de tanto convívio – sequestrou o banal e impôs um novo normal: retração, recolhimento, desconfiança. Mas também conexão.

A dimensão da casa é maior e menor depois da pandemia: cada família reduzida a um mínimo, três ou quatro pessoas confinadas, e cada pessoa encasulada em si mesma, mas tudo mais interligado.

Dependemos uns dos outros mais agora do que antes, nem que seja para ajudar a contar os grãos de feijão espalhados no meio da sala como maneira de derrotar a morte pelo cansaço.

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