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Um dia: 27 de agosto de 2006 ou Daniel na cova dos leões*


Antigamente, era lá onde me refugiava nas tardes quentes e modorrentas: abria-a e, durante algumas horas, transportava-me para lugares cuja paisagem em nada se assemelhava à que tínhamos nos arredores de casa. Homens e mulheres também se distinguiam por seus traços físicos aos de nossa convivência; além disso, havia as vestimentas, túnicas e roupões folgados que lhes cobriam de cima a baixo. Na maior parte das vezes, o sentimento que ditava o rumo de minhas ações era este: o medo. Dos rostos retorcidos, mãos persignadas, anjos desnudos. Via-crúcis pintada por diferentes artistas, todos renascentistas. Jesus Cristo trespassado por uma lança muito comprida; o sacrifício de Isaac; o encontro com Maria Madalena; o retorno à vida de Lázaro. Arrebatado, detinha-me um pouco nas páginas brilhantes cada vez que, resfolegante, o medo dava as caras. O mesmo medo suscitado pelas figuras imutáveis das cartas de baralho, por alienados e mancos de todas as qualidades.

Hoje, conto vinte e seis anos e alguns vincos na testa pronunciada. Verdade: falta-me também um punhado de cabelos aqui e ali e sobra-me um tanto de preguiça, mas nada que denuncie de forma inapelável a idade a galope. Certeza recorrente, penso na minha velhice precoce com alguma preocupação. Em seguida, afasto tudo isso olhando-me no espelho do banheiro. Satisfaço-me com o que ainda resta da criança que um dia fui.

Na casa de minha mãe, por algum motivo ainda hoje envolto em mistério, não se almoça antes de uma da tarde. Acostumado, logo ao chegar procuro algo para comer e, assim, entreter o estômago. Diante de uma xícara de café e algumas bolachas com manteiga, aproveito para conversar com minha avó, em casa naquele dia. Uma velha de mais de oitenta anos, encurvada e cheia de histórias. Outro dia, falou-nos de quando Lampião chegou a sua cidade, Iracema, no Rio Grande do Norte. O alvoroço de todos ante a presença do cangaceiro, o embate entre os homens de Lampião e os “macacos”. Levou quase uma tarde contando a história. Depois, retornou à realidade do corpo combalido, assumindo ares de pobre-coitada.

No encalço da neta, minha mãe dava voltas na casa. Um trabalho sem fim, cuidar de criança, sobretudo quando se trata do primeiro neto. Dedicação absoluta, às vezes se confunde e olha a menina como se visse, ali, a filha perdida tanto tempo atrás. O assunto, por alguma razão, vem à tona, e é quando mamãe corre ao quarto e retorna com um grande e volumoso livro: uma bíblia com mais de vinte anos. Comprara-a de um vendedor ambulante e, à época, custara-lhe um absurdo, o que acabou motivando brigas intermináveis com o meu pai. A besteira, disse ele após uma semana, tinha sido feita. Agora, cuidasse da bíblia, que fora por demais cara. Hoje, a capa dura desprendia-se ao menor contato das mãos; abrindo-a, viam-se manchas em muitas páginas, marcas da presença de traças e tantas outras, impressas pelo tempo.

Mamãe depositou o livro pesadamente na mesinha da cozinha. Na panela de pressão, o feijão dava mostras de que tudo faria a fim de atrasar o almoço. A carne, retirada há pouco do congelador, degelava sobre a pia, onde se encontravam algumas metades de cebola e cheiro-verde picado. Agora conformada, a menina brincava com um sem-número de bonecas no cercadinho. Abrindo o livro, mamãe, triunfante, apontou:

“Sabia que o nome dele era Ricardo!”

Em seguida, correu o dedo ao longo da folha amarela onde se viam os registros de batismos. No caso, o meu e de meus dois irmãos. Estava tudo ali, datas, nomes de padrinhos e madrinhas e, claro, os nomes dos padres que haviam presidido toda a liturgia. Sim, ela tinha razão: padre Ricardo batizara-me, há mais de vinte e cinco anos, na Igreja de São Pio X, no bairro Pan-Americano. A mesma igreja na qual, muitos anos depois, minhas duas avós se encontrariam: uma, viva, enquanto assistia à novena; a outra, morta pelo câncer não tinha um mês. Tudo não passou de um aceno, disse minha avó alvoroçada ao chegar em casa.

Após nos certificarmos de todos os nomes e datas, passei a folhear a bíblia. Em poucos minutos, encontrei exatamente a pintura por que tinha procurado durante todo o tempo, sem encontrar jamais uma reprodução que fosse. Ali, entre dois Rembrant, um Daniel suplicante rodeado por muitos leões, um dos quais debruçado sobre o crânio descarnado de um homem. Daniel tinha os olhos presos a qualquer ponto acima de uma cadeia de rochas. Metido em trapos, aguardava que algo – uma intervenção divina, por exemplo – o socorresse, salvando-o da morte iminente. Para ele, não havia, a meu ver, salvação. Assim pensava quando criança; assim penso hoje. Fora castigado? Caíra na cova casualmente? Que graves pecados tinha cometido? Não sabia.

Eram-me indiferentes as razões que o levaram a estar, naquele momento, onde estava: cercado por feras.

[Texto escrito na data indicada no título, 27 de agosto de 2006, e publicado num blog antigo] 

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