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Cenas de shopping

Gente pra lá, gente pra cá, os pais docemente conduzindo os carrinhos com os filhos, as mães orgulhosas dos maridos, os maridos orgulhosos das crias sonolentas embarcadas como pequenos astronautas em cápsulas espaciais, protegidas de tudo.

Os pais de tênis, as mães de sandália baixa. Os pais de polo, as mães de calça apertada ou vestido. Os pais com o braço como a alça de uma xícara, as mães com as mãos entrelaçando o marido de modo a retê-lo o máximo possível. Os filhos dormindo ou correndo.

Mas ainda não é isso.

Vejam esse cara, por exemplo. Está todos os sábados no café da livraria. Uns 45 anos? Engenheiro civil, agora estuda direito porque resolveu fazer uma segunda graduação. Mede 1,80 metro, pele morena, cabelo grisalho. Raramente com a família. Senta e começa a conversar com outro homem mais velho, que passa a lhe explicar pormenorizadamente conceitos do direito que seriam muito áridos para qualquer pessoa, menos pra ele. Ocupam-se por meia hora. Depois levantam ao mesmo tempo e saem.

De repente o espaço se esvazia, é um desses soluços durante os quais os lugares ficam repletos de silêncio e o dia, seja qual for, passa por um estremecimento. Não sabemos mais se é sábado ou domingo.

Pego um livro. O novo do Murakami. Não gosto do Murakami, mas sempre dou uma segunda chance para o Murakami. A contragosto, começo a ler o seu livro mais recente publicado no Brasil. Um volumoso romance sobre uma história que parece ser a mesma de outra dezena de livros do Murakami. Um diálogo se segue a outro diálogo. Frases pobres, ritmo de novela. Mais diálogo, tudo pontuado por algum evento miraculoso que transforma tudo.

Imagino 600 páginas daquela prosa. Desisto.

Todo café tem um louco, e o daquele café já tinha ido embora. Ele tem cabelos azuis, sapatos coloridos e frequenta a cafeteria todos os fins de semana. Uns 15 dias atrás estava cercado por uma audiência que incluía duas mulheres, dois senhores de uns 60 anos e um rapaz de 30 e poucos que assentia pra tudo.   

Noto que a vendedora está um pouco triste. Uma pena. Queria lembrar seu nome. Aceno pra ela e peço a conta, ela murmura de volta: a conta? Eu balanço a cabeça. Então ela faz o número sete com os dedos das mãos e aponta para o caixa.

Fico sentado. Dois adolescentes conversam sobre um assunto que não consigo descobrir. Embora esteja usando uma camiseta jovial e sapatos modernos, me sinto muito velho.  

Olho a placa na lapela da blusa da vendedora. Karolina.

Pago a conta, devolvo o Murakami à primeira torre de livros que encontro, ao lado de fadas e guerreiros com espadas. Ando mais um pouco, agora sem rumo. Tinha achado que poderia ler e até gostar do novo Murakami, mas Murakami mais uma vez se mostrou exatamente aquilo que ele é: Murakami.  

Entristeço. Acontece com alguma frequência. Alterno estados de humor, passo da euforia à melancolia sem escalas no banzo ou no descontentamento. Sofro de despressurização. É terrível. Como se caísse de um beliche.

Rodo mais um pouco. A livraria está cheia agora. Casais de adolescentes parados nos corredores aos beijos ou apertando o focinho um do outro. Muito fofo.

Pulo de prateleira em prateleira à espera de algo que possa surpreender. Um livro jamais escrito, um autor nunca comentado, uma capa atraente sorrindo pra mim.

Encontro. Chama-se O caminho de casa, de Yaa Gyasi. Leio um parágrafo. Gosto. Leio mais um pouco. Continuo gostando. Logo me convenço de que uma frase desse livro vale as 600 do novo Murakami. Carrego comigo.

Estou feliz, mas isso também me preocupa. Como a tristeza, a felicidade vem sem motivo algum. A sensação que tenho é de que não posso curtir muito esse momento. É como se usasse uma droga, sei lá. Vai passar, não se empolgue tanto, a gente já viu esse filme antes etc. Parece que escuto a voz do Bill Murray me dando conselhos que nem ele mesmo seguiria. 

Vou até o caixa. Batuco qualquer mensagem no celular. Digo que estou longe, ainda demoro etc. Olho o Facebook: três curtidas numa foto postada duas horas atrás. Um fracasso.  

Caixa livre, ouço a mulher falar atrás do balcão. Dou boa noite, ela não responde. Em vez disso, pergunta se tenho cadastro. Digo que sim, e depois falo os números do CPF.

É minha oração. Fui assaltado duas vezes num intervalo de dois meses cerca de dez anos atrás. De lá pra cá, jamais esqueci os números dos meus documentos.

Ao todo, sei decoradas as senhas do cartão de crédito e de débito, internet, portão do prédio, RG, CPF, senha do banco, senha da biblioteca da faculdade, login de acesso ao sistema do jornal, senha das contas de Spotify e Netflix, senha da Amazon, email, Twitter e Facebook. 

É pra presente?, essa é a segunda pergunta que ela me faz. Digo que não. Insira o cartão, por favor.

Faço isso maquinalmente. Do instante em que entrei na fila até aquele momento, tudo havia se passado como numa operação entre máquinas – a tudo que ela perguntava sem me ver, eu respondia sem enxergá-la.

Em seguida uma série de eventos desimportantes acontece, até que finalmente chego em casa. Poderia escrever: quando saí, estava novamente triste. E não seria uma mentira, eu estava mesmo. Mas, como evitara a felicidade quando ela apareceu sem mais nem menos, também driblei essa onda  de tristeza.

Olhei em volta. Dúzias de pessoas do lado de fora com sacolas à espera de um carro que as levasse de volta pra casa, onde desembrulhariam seus presentes. Que triste. 

Mas prefiro parar agora e começar outra coisa. Não sei o quê. Sobre o que escreveriam num sábado à noite? O que teriam a dizer num dia como hoje? Acho melhor deixar as coisas mergulhadas um pouco nesse silêncio de soluço. 

Penso numa cidade que nunca conhecerei. Numa porta que jamais verei. E, na porta, numa inscrição talvez já apagada. Isso também é muito triste. 

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