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Final explicado

 

Há por todo o canto da internet um mal terrível que atende pelo nome de “final explicado”, que é, por si mesmo e sem ironia, autoexplicativo.

Trata-se do desfecho de uma narrativa ao qual se adicionam muitas camadas de uma explicação qualquer, razoável ou não, relevante ou não, manifestada em qualquer plataforma e orientada pela certeza de que o sentido último de uma obra de arte existe e pode ser alcançado.

Da série de TV à novela da Globo, passando pelo filme da Marvel recém-chegado aos cinemas, a mania de explicar abarca tudo, numa pandemia explicativa, com o perdão da redundância. Nenhum mistério lhe opõe resistência, nenhum meandro está a salvo dessa devassa cognitiva à caça de audiência.

Para a turma do “final explicado”, explica-se de tudo e tudo é passível de iluminação. Toda a matéria humana é críptica, esquiva, esotérica, não importa se a gente está falando de dragões feitos em CGI ou de uma produção em alemão com viagens no tempo e lances miraculosos de um “doppelganger”.

Esse influenciador digital enxerga toda a paisagem cultural como um hermeneuta diante de alfarrábios descobertos em cavernas no sul da França, ou seja, como relíquias repletas de emaranhados simbólicos aos quais apenas ele, tradutor de arcanos, seria capaz de interpretar.

Tão logo um produto audiovisual termina (“Os anéis do poder”, por exemplo) e seu derradeiro capítulo vai ao ar, de imediato se prontificam exércitos de marmanjos barbados munidos de câmeras sensíveis, boa luz e cadeiras gamers contra um fundo de estantes habitadas por Funkos.

Produzem então explicações a mil, todas muito ponderadas sobre o que tal ou qual cena significa no arranjo metafórico de tal ou qual episódio de tal ou qual “universo”.

Porque já não se fala modestamente de trilogias ou de tetralogias, como “De volta para o futuro” ou “Karatê Kid”, mas de uma vastidão sem fronteiras que depois se converte em franquias, camisetas e uma infinidade de traquitanas colecionáveis.

Qualquer filme de boneco hoje em dia aspira a essa elevada condição de apresentar não uma hora e meia de diversão descompromissada numa sala escura com pipoca e refrigerante, mas de construir um castelo alegórico de fazer inveja a Kafka, com suas regras, leis e modos de vida próprios.

Daí que os templários do mundo virtual, cavalgando seus teclados luminosos e mouses ultramodernos, se entreguem com ardor a essa atividade adivinhatória dos tesouros mais bem guardados em uma passagem da batalha final contra mortos-vivos ou de um diálogo secundário entre uma raposa falante e uma alienígena de orelhas pontudas.

O objetivo, claro, é desvendar um segredo e explicá-lo em seguida. É fazer demonstrar um sentido pouco ou nada evidente, supondo obviamente que tudo, até um novelão com orcs, guarda uma cifra, uma leitura insuspeita cujo acesso só é permitido aos mais atentos.

O que se perde nessa história toda é, mais uma vez, autoevidente: nem toda narrativa comporta um final, nem todo final se explica, nem toda explicação se basta, nem tudo que é insuficiente e falho precisa de reparos.

A pretensão de explicar o desenlace de qualquer história, seja em que mundo for, é a morte da própria história.

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