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Três instantâneos de carnaval

1. 
Uma garota rente ao palco sacode o corpo vestido de Cleópatra, está sozinha e para apenas de vez em quando, saca o celular da bolsa e canta, dirige-se à tela como se a outra pessoa, declama versos a plenos pulmões de uma música que fala de amor de carnaval, desencontros etc., uma temática clássica no vaivém passional de qualquer festa, sobretudo esta, ainda mais agora, o último fim de semana do pré, no ar uma certa urgência quase impositiva, mas ela não faz nada além de cantar e dobrar-se sobre si mesma, os movimentos lentos como se acionados remotamente por outra pessoa, ela habitando esse corpo enquanto a garota real está em casa e fantasia com hipóteses de felicidade.

2. 
A seu lado uma mulher mais velha, talvez 60 anos, salta ritmadamente nos dois pés quando a banda manda essa canção de um grupo de lambada muito antigo, quem sabe se lembre de quando ainda tinha a idade que tenho agora e num baile como aquele dançou exatamente como hoje, mas com mais energia, de tempos em tempos ela e a filha – presumo que a garota mais jovem que a acompanha seja filha ou neta – sorriem entre si, numa cumplicidade de quem constata felicidade, esse momento raro e fugidio que, mal o vimos, escapou, de maneira que ambas entendem ter de ir ao encontro seja lá do que procurem  nesse instante em que a chuva aperta mais e os pingos filtrados pela copa das árvores se tornam mais grossos e frios e alguns até doem nas costas.

3. 
Eu não o conhecia antes, acenou e puxou conversa, estava também sozinho, me disse, e pensei comigo de repente que para uma festa de carnaval havia muitas pessoas desacompanhas, um homem de meia idade ensaiando passos de axé, havia mais disposição que desenvoltura em seus movimentos, às vezes interrompia um arco mais amplo que fazia com braços e pernas e se observava discretamente, como se desejasse congelar esse segundo e projetá-lo diretamente na lembrança como fazemos com certas substâncias jogadas na corrente sanguínea e de cujo efeito temos necessidade imediata a fim de aplacar seja que agonia íntima, então supus que esse homem avulso numa festa em meio a dezenas de pessoas fantasiadas precisasse provar a si mesmo que ao fim dessa música seria um outro, não mais o que havia sido até aquele momento, mas um que se dissipasse no ar ao ouvir os sucessos da banda Eva naquele distante 1996, quando ele e outro dançaram juntos num carnaval que em nada lembrava este de agora.  

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