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A experiência


Levei dois caldos depois de meia hora decidindo se entraria no mar ou se continuaria estirado na areia ouvindo música e tomando sol, como qualquer adulto faz ao constatar que a maré está naqueles dias tensos de pré-ressaca.

Pra piorar: sob efeito da lua cheia, fenômeno conhecido por desorganizar hormônios, desarmonizar o zodíaco e assanhar as palhas do coqueiro existencial que todos nós cultivamos nesse frágil jardinzinho instalado no coração (que imagem terrivelmente sertanejo-universitária, meus leitores, mas estes são tempos difíceis nos quais o modão* é a expressão máxima de toda dor e sofrimento amorosos).

No primeiro caldo, um golpe inesperado, saí rolando onda abaixo e acima, feito uma mala solta no bagageiro de um carro que cruza o sertão cearense numa estrada carroçável.

O segundo, menos violento, me levou ao chão com carinho, quase como se se desculpasse de aplicar uma queda logo após ter sido derrubado pela onda anterior.

Explico: para esse eu tive condições de me preparar psicologicamente. Porque existem dois tipos de caldos: o que pega a gente no contrapé, e esse é sempre mais difícil. É como uma dessas paixões fulminantes, que chegam e arrasam com tudo sem perguntar nada.

E um segundo tipo diante do qual simplesmente aceitamos a nossa impotência e entregamos o corpo como uma oferenda aos humores (e furores) da onda, incapazes de resistir ou correr.

Um arrebata e o outro simplesmente se impõe, quer desejemos ou não.

Experimentei os dois em cinco minutos de banho de mar na segunda passada na Praia dos Crush.

Havia tempos não levava surras assim, dessas das quais saímos tontos, a cabeça zunindo com toda essa água salgada que entra por ouvidos e narina e depois fica lá chacoalhando por um bom tempo, como se um enxame de abelhas houvesse se instalado ali.

Depois parei na areia, me sequei de pé ao sol observando atentamente se mais alguém estava apanhando tão feio das ondas naquele momento quanto eu cinco minutos atrás. Não tinha ninguém, salvo uma menina muito magra que me pediu para olhar sua bicicleta enquanto ela mergulhava.

Pastorando a bike, fiquei pensando nesse instante engraçado que antecedeu a quebra da segunda onda no qual eu precisava tomar uma decisão urgentemente.

Nessa fração de segundo, o tempo apenas de uma piscadela, eu considerei prós e contras e concluí que era já tarde pra correr na direção da onda e furá-la com um mergulho, escapando por dentro como um golfinho com sobrepeso. E mais tarde ainda pra fugir até a areia e me livrar da zona de arrebentação e, portanto, do impacto da massa aquosa sobre a minha cabeça.

Ali, parado com água quase até o pescoço, um meio sorriso bobo de quem acabou de ser trapaceado pelo cobrador do ônibus, eu simplesmente resolvi esperar. 

Até que a onda veio e fez o seu trabalho, já pobremente relatado nos parágrafos anteriores nos quais esboço uma espécie de taxonomia das ondas e dos caldos nos mares do Ceará neste mês de fevereiro, quase março, véspera de carnaval.

Disso tudo, não aprendi nada especial, se é o que estão pensando neste momento. Nenhum ensinamento, nenhuma filosofia, nenhuma iluminação poética enquanto tentava recuperar o equilíbrio na areia e três crianças mais distantes davam pinotes mortais, piruetas que me fizeram lembrar que a praia é uma área de alto risco.

Talvez por isso tenha achado engraçado e sorrido segundos antes de ser colhido e liquefeito num rodamoinho de água e algas, porque havia muitas algas naquele dia, e também muitos copos descartáveis rolando como bolas de feno num cruzamento deserto de uma cidade do meio-oeste americano.

Pensei que eu era muito velho para isso, lutar contra a água, arriscar um mergulho num tempo assim tão imprevisível, ainda mais sob estímulo da lua cheia. Melhor: da superlua, que certamente faz redobrarem todos os efeitos já conhecidos da ressaca.

E, no entanto, lá estava eu de volta ao mar mesmo sabendo que a maré não estava para peixe e que se eu quisesse entrar mais uma vez teria de estar preparado para cair e levantar e cair novamente e quem sabe até continuar caído, sem perspectiva alguma de me erguer heroicamente como num filme do Rocky.

Isso não é metafórico, é literal, por isso esperei mais alguns minutos, a ver se a água baixava, mas desisti depois de consultar a tábua das marés no celular. Então andei mais um pouco de bicicleta, tirei a camisa, senti o sol ardendo nas costas e cobrindo tudo com essa camada de pele oxidada que é a forma natural de o corpo se proteger de todos os riscos, os reais e os virtuais.

Ouvi a faixa de músicas de 2018 no Spotify, coisa que não fazia também havia muito, mas agora sem saudosismo nem tristeza, apenas como exercício de fruição do tempo. E foi como se recuperasse algo perdido, a paisagem, aquele pedaço da cidade, o roteiro, tudo – havia algo que eu tinha de volta, estava comigo, não como uma bola ou um videogame pertencem a um menino, mas como um gato que desaparece por dias e depois volta pra casa se aninhando primeiro com desconfiança e depois mansamente entre as nossas pernas.

E foi assim que olhei outra vez para os coqueiros e os bares e o calçadão, arfando sob o sol e aspirando esse cheiro forte de camarão no alho&óleo que servem nas barracas irregulares espetadas como grandes restaurantes bem no meio da areia das quais saímos com odor de fritura.

Também notei que o coração de madeira no qual eu havia escrito meu nome cerca de um ano e meio atrás tinha sumido, ou simplesmente deixado de existir. Ou afundado. Ou sido levado pela água, como a escultura do Sérvulo arrastada pela última ressaca, aquela bem forte que entortou o barquinho que flutuava feito uma pipa no extremo da ponte metálica e depois foi exibido no museu do Dragão do Mar como uma coisa muito valiosa que os pescadores casualmente encontraram, algo como um fóssil de sereia ou a comprovação de que alguns homens têm a capacidade de se metamorfosearem em botos por algumas horas da noite.

Então ali estava ela, a escultura danificada cujo paradeiro não se sabe agora, e ali estava eu, um trapo recém-costurado que inflava feliz ao vento como uma vela de jangada. E entre nós não havia mais qualquer coração, apenas essa vastidão de areia quente sobre a qual andamos rápido e aos saltos por medo de queimarmos as solas dos pés. 

Tudo estava retorcido, tudo empenado, nunca mais o mesmo, mas ainda assim um barco.

* Pra quem não sabe, modão é como se chama a música típica sertaneja, essa coisa pegajosa que ouvimos nas rádios e cujos refrões celebram a dor de cotovelo e o desamparo afetivo numa sucessão interminável de rimas pobres. 

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