É hora do almoço, e o restaurante fecha às 13h
em ponto. Funciona como uma repartição muito antiga de cuja pontualidade
dependesse o equilíbrio de energias universais, polos que se opõem e nessa
disputa mantêm-se entretecidos um ao outro. Mas é apenas um restaurante, lugar aonde vou
se preciso comer de manhã cedo ou no meio da tarde. Hoje ainda não comi. Estive
durante muito tempo engolfado numa espécie de nódoa. Um visco que tento
afastar, mas está aqui. Gruda, desliza, recobre o corpo, pernas e braços,
pescoço e tórax. Prende-se ao pau e aos pés. Não há como descamá-lo. Inútil desfazer-se
da sombra. Sorte se entrasse numa loja de cosméticos e me vendessem o produto
adequado para esfoliar da pele tudo que é matéria morta e veneno próprio. Mas nisso
estou com pouca sorte. A esta hora nada abre, tudo fecha. Como se disso
dependesse o arbítrio que governa cada pequena forma de vida.
Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...
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