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Uma conversa com L (ii)

A resposta de L não demorou, o que não me surpreendeu. L escreve com uma argúcia impressionante, suas palavras abrem caminhos como pequenos bisturis, pra usar a expressão que ela mesma já utilizara pra se referir ao modo como pretendia descobrir o que se passava consigo. Uma metáfora clínica, medicalizante, cirurgicamente empregada a fim de sugerir que operava não no terreno movediço no qual eu gosto de me movimentar, esse de palavras jogadas ao acaso.

L sempre cavava mais fundo, ia mais longe, mergulhava e demorava a tornar à superfície. Nesse ponto somos diferentes, ela uma nadadora profissional orgulhosa de suas braçadas e eu em nado cachorrinho tentando chegar até a outra borda da piscina. 

E o que disse L? Que não é L, mas uma personagem, ou seja, L se recusa a assumir essa identidade. L não quer ser L, mas uma outra. Melhor dizendo: L considera-se uma outra e não esta com quem converso, a cuja personalidade atribui muito de fabulação e um tanto de egocentrismo.

Foi disso que L me acusou, “egocentrismo especular”, outra de suas expressões brilhantes.

Se entendi bem, minha amiga L, que não é a personagem L, mas a verdadeira L que me escreveu tão logo leu o que havia escrito aqui, garante que não passa por qualquer processo de revisão, entendida a palavra como a ação de voltar a vista novamente a uma planície já gasta pelo tempo, um estirão de estrada já palmilhado. Estou cansada, disse. Me entedia ver tudo acontecer de novo.

Mas não vejo assim. Revisamos e ficcionalizamos na mesma medida. O fio da meada é na verdade a ordem que instituímos quando tudo o mais falha. E sempre falhamos, seja em continuar, seja em voltar no tempo. O tempo é a própria falha.

Se contamos o que se passou, falhamos. O que se passou é perdido pra sempre, não recuperamos, e disso L sabe melhor que eu, talvez. L sabe que as coisas têm uma dimensão inapreensível contra a qual lutamos de tontos que somos.

Dito isso, passamos a jogar com os espelhos, um jeito de procurarmos um ao outro na imagem que projetamos. L devolvendo as fantasmagorias que eu lhe havia apresentado em nossa conversa mais recente, eu por meu turno insistindo em que L era L e não uma outra, um pouco receoso de aborrecê-la com esse ramerrame de que o limite do ser está além do ser. Do mesmo modo que eu também sou L e não um outro, L poderia ser esta e não aquela que pensa que é.

Assim eu propunha que L assumisse uma identidade terceira e falasse como outra, enquanto eu mesmo desejava ser esse que inventa, que fala e acredita simultaneamente, que elege o pacto como uma verdade, o acordo como o elo mais importante entre duas pessoas. Em nome da mentira, falaríamos apenas a verdade. Em nome da verdade, diríamos mentiras. 

L não gosta de jogar. Nem ela me convenceu de que não revisa seus anos em busca desse fio de Ariadne, tampouco eu fui convincente na tentativa de convencê-la de que L é L mesmo quando não é. Nossa fala, eu lhe disse, é tão alheia quanto nossa. Nunca é a fala original desprendendo-se do fosso que somos e no qual afundamos. Mas uma fala construída com os pedaços que juntamos na rua.

Continuamos assim, entre mudos e expectantes. Depois suspendemos a conversa e fui trabalhar. Passei horas pensando em tudo, tomei café e continuei pensando, eu mesmo agora entregue a esse trabalho de revisar, repassar, revisitar antes de decidir novamente que o tempo é criação e nessa criação somos tanto deuses quanto criaturas.

O resultado é que começo a concordar com L. Acho que não, não a conheço, nem ela a mim. Somos estranhos, e nos estranhamos o tempo inteiro.  L diz que a assusta ver a si mesma como eu a vejo, no espelho que eu mostro.

Então repito apenas comigo que temos um acordo e finalmente vou embora. 

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