A amiga
saltou, o amigo também. De repente, todos estavam saltando. Todos depois que
todos os outros antes deles tinham saltado. Mas isso foi noutra época. Uma época
em que se podia saltar em paz, sem ser atrapalhado por ninguém que atravessava
a cidade de carro, mas também de bicicleta, para, depositando as coisas num
cantinho, perguntar se alguém olhava e pá, pular do alto da ponte direto no
mar. A falta de jeito era parte do charme. Afinal, ninguém antes dele ou antes
dela tinha saltado da ponte. Ninguém com mestrado e doutorado. Ninguém que sabia
ler com fluência textos em três idiomas havia saltado da ponte antes dele. E
ele também queria. E saltou. E gostou do salto, que durou menos tempo do que a saudade que tinha quando estava em casa e não podia saltar. Durou tanto tempo
que, enquanto saltava, no meio do desenho que o corpo vai fazendo no ar, esse
arco meio torto, é verdade, pensou se já não seria tempo de voltar a dizer o
que antes tinha medo de dizer. Enquanto caía, nessa trajetória errada de pulo
que, no final, acaba dando certo, considerou a possibilidade de ao menos uma
vez estar diante dele ou diante dela e oferecer algo além de um sorriso atrás
do qual se escondia como um bicho numa touceira no meio do mato. Pensou que
podia, sim, mas aí já tinha caído e mergulhado e agora as bolhas e os sons se
misturavam ao barulho do zumbido e à ardência nas pernas e braços. Agora ele
também tinha saltado. Podia dizer. Eu pulei. E foi bom. Gostei. Saltou tantas
vezes naquela tarde que voltou pra casa achando um erro da evolução termos
ficado de pé muitos anos atrás e, antes disso, termos deixado a água, que é
realmente o melhor lugar do mundo. Na água ninguém sente que precisa saltar
para chegar a qualquer lugar.
Desejo para 2025 desengajar e desertar, ser desistência, inativo e off, estar mais fora que dentro, mais out que in, mais exo que endo. Desenturmar-se da turma e desgostar-se do gosto, refluir no contrafluxo da rede e encapsular para não ceder ao colapso, ao menos não agora, não amanhã, não tão rápido. Penso com carinho na ideia de ter mais tempo para pensar na atrofia fabular e no déficit de imaginação. No vazio de futuro que a palavra “futuro” transmite sempre que justaposta a outra, a pretexto de ensejar alguma esperança no horizonte imediato. Tempo inclusive para não ter tempo, para não possuir nem reter, não domesticar nem apropriar, para devolver e para cansar, sobretudo para cansar. Tempo para o esgotamento que é esgotar-se sem que todas as alternativas estejam postas nem os caminhos apresentados por inteiro. Tempo para recusar toda vez que ouvir “empreender” como sinônimo de estilo de vida, e estilo de vida como sinônimo de qualquer coisa que se pareça com o modo particular c...