Pular para o conteúdo principal

Zumbis pra crianças: manual de sobrevivência



Bom, bom...

Voltando aos zumbis, a resposta é: não sei. Depende de tanta coisa. Depende de saber primeiro o que é um zumbi, de onde vem, para onde vai, se é da família ou foi algum dia, se parece afetuoso, há desses casos em que o morto-vivo retorna carregando algum vestígio de sentimento fraterno, fuja desses, são os piores, fingem-se amáveis apenas para comê-los mais facilmente.

Disso dependerá a sua sobrevivência, conseguir distinguir primeiro entre vivos e mortos-vivos, entre vivos honestos e vivos inescrupulosos, entre os inescrupulosos que podem ajudar e os inescrupulosos que certamente irão querer tirar proveito de você.

Como já devem ter percebido, não há uma regra para lidar com zumbis nem com as pessoas que estão correndo dos zumbis, sobretudo se você é uma criança e está à procura de respostas seguras, ou seja, um manual ou tutorial. Aprendam desde já, não há respostas seguras, apenas sugestões do que fazer quando a hora chegar.

A hora chegando, tentem se acalmar, afinal trata-se de um punhado de carne morta vagando pelas ruas ou corredores ou quartos de condomínios abandonados buscando carne fresca ou não tão fresca assim. Segurem o nojo, apurem os ouvidos, disso também dependerá a sua sobrevivência, muita calma e uma boa audição e um bocado de sorte, é claro.

Com as três coisas é possível seguir em frente por muito tempo, quem sabe crescer, ficar adolescente, escolher uma profissão e ter filhos a quem educar e repassar as regras, envelhecer e um dia talvez sentar na varanda de uma casa desocupada no fim do quarteirão e pensar, puxa vida, passei por tantas e boas nessa vida que acho que mereço uma bebida agora. Isso caso ninguém descubra o que está acontecendo antes e a vida volte a ser o que sempre foi, uma corrida maluca, mas sem zumbis.

Respondendo a pergunta diretamente: fugir será sempre a melhor saída. Concordam? Mas fugir para onde? Fugir como? Fugir com quem? Também não há resposta pronta para nenhuma dessas dúvidas, apenas sugestões.

Regra de ouro: escolha pessoas em quem confie, isso vale para um mundo infestado por zumbis ou apenas de gente normal, como os vizinhos e amigos dos vizinhos e as professoras do ensino fundamental.

Às vezes, porém, será mais seguro esconder-se e esperar o dia nascer do que fugir, isso vale para situações que descreverei no próximo episódio, como as manadas de zumbis ou zumbis altamente inteligentes, sim, sim, criaturas que passariam tranquilamente pela nota de corte do Enem, quando algum dia encontrá-las andando por aí ou simplesmente refletindo sentadas na parada do ônibus, pensem duas vezes antes de correr ou brincar de estátua. Como veremos, nesses casos e também em outros, o melhor talvez seja puxar assunto. 

Mas que assunto? Isso fica pra outro capítulo, o que conversar com zumbis que não pareça apenas papo de quem está na verdade se pelando de medo e pretende fugir na primeira oportunidade. 

Disso também dependerá a sua sobrevivência, saber falar com gente que não pertence a este mundo nem a qualquer outro.  

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...