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Ano novo



É uma das poucas vantagens da ponte velha que talvez outras pontes não tenham: avança não apenas no mar, mas também no tempo. Engole água salgada e todo o rejeito que ali chega através das canaletas de esgoto que vão se afunilando e afunilando antes de desaguar. É um banquete de reaproveitamento. Noutros casos, noutras pontes, o recuo não implica distanciamento e o distanciamento, recuo. A ponte velha, afastando-se da terra, ainda que destroçada, assoreada e esquecida, estreita laços com outra coisa que não sabemos. 

E assim estava naquela noite: uns poucos metros além de tudo que parecia excessivo, mas próximo o suficiente para saber que, da nascente até a porta derradeira, qualquer fuga é projeto destinado à falência. E falir, seja de que modo for, não é vergonha para ninguém. 

Empenhado em enxergar as coisas sob outra perspectiva e ao mesmo tempo mantendo certo cuidado para não forçar a mão na manobra, pecando por exagero, esperei a queima dos fogos, que durou apenas o tempo necessário: 16 minutos. Um tempo que não compreendo de todo, afinal 16 minutos é uma fatia simbolicamente destituída de grandes importâncias. O que disseram os maias e os incas sobre o número 16? Nada, suspeito. 

Para chegar até a ponte, foi preciso atravessar uma espécie de corredor polonês. De um lado, os tapumes instalados pelo governo, como a proteger as obras do aquário de uma perigosa tribo de remanescente dos primeiros indígenas, aqueles que recepcionaram o homem branco a pontapés. Já me disseram que Fortaleza é a terra dos fortes. Quer sob a lógica da força, quer sob a da vigilância, estão cobertos de razão. Nela, os canhões não apontam para o mar, de onde se espera venham os invasores, mas para a própria cidade, que tem por hábito reconhecer no gentio um inimigo a ser batido, ora a tiros, ora com a invisibilidade.

Em parelha com os tapumes, as mesas e cadeiras e os carros estacionados na areia da praia tocando forró a um volume que superava o marulho das águas. Havia ali uma festa de aniversário para a qual nenhum de nós tinha sido convidado. Esse era o espírito. Sentia que grande parte dos convivas se conhecia de longa data e a qualquer momento alguém ou barraria nossa passagem ou pediria um convite ou perguntaria se já havíamos provado do bolo, que, por sinal, estava delicioso.

Procurei o bolo, mas não encontrei nada, exceto churrasquinho e espumante barato e muitas crianças brincando de pega-pega e outras tantas aboletadas no colo da mãe, as roupas novas amarfanhadas, os cabelos assanhados e os pés sujos de correr até cansar. Porque se há um momento que pode ser especialmente frustrante para uma criança é a passagem de um ano a outro, quando as expectativas, sempre altíssimas, dão com os burros n’água, e a explosão de cores no céu deixa sempre um vácuo de melancolia quando finalmente acaba. Foi pra isso que ficamos acordadas até agora?

No fim do túnel, tratei de me concentrar nos perigos que, num cantinho obscuro da minha cabeça, permanecer ali à meia-noite representaria. Feito o cálculo, uma rápida equação cujo coeficiente de imponderabilidade decidimos aceitar como parte do pacto de comadres que fazemos com o ano que nasceria dali a pouco, resolvemos ficar e assistir à queima junto com o pessoal da comunidade do Poço da Draga.

O restante, dos 16 minutos em que os fogos se consumiram em cores até a ida pra casa, quando nenhum táxi aceitou a corrida, pode ser resumido assim: na ponte, um carinha encostou de moto. Levava uma menina na garupa. Os dois riam à beça. O carinha então perguntou se eu tinha isqueiro. Parecia divertir-se com algo que eu não sabia o quê.

Enquanto procurava o isqueiro, fez aquele gesto capaz de gelar o sangue de qualquer um: enfiou a mão no bolso da camisa, de onde imaginei saltaria uma arma para assaltar. Contrariando as estatísticas policiais e o medo atávico, o carinha soltou uma gargalhada e puxou um cigarro de maconha. Exatamente como qualquer cigarro de maconha que meus amigos acendem nas festas da vizinhança do Poço. 

Não sei se vocês sabem, mas acender um cigarro à meia-noite na ponte velha é, por muitas razões, um desafio e tanto. As principais: o vento forte, a ausência de anteparos e a presença constante dos policiais que fazem a ronda nas obras do aquário. O carinha manteve-se o tempo inteiro com esse risinho travesso estampado no rosto. Depois entendi: era o riso de quem se acostumou a adivinhar medo no outro e a tirar sarro dessa superioridade. Fiquei assistindo ele lutar para chamuscar o papel e aspirar a fumaça.

Aceso o bagulho, perguntou se eu queria. Recusei. Ainda voltaria outras duas vezes para reacender o cigarro. Numa dessas, encostaram três policiais. A queima de fogos já tinha começado. Dois pularam da moto, o terceiro ficou montado. Um deles filmava o pipoco das bombas que coloriam o céu de Iracema. 

O carinha disparou em direção à parte mais escura da ponte, lá onde a coberta arruinada da construção lembra uma nave espacial e o que se enxerga são apenas pontinhos brilhando passando de boca a boca.

Enquanto voltava pra casa, depois de percorrer novamente o corredor e ver mais crianças dormindo no colo de mães e avós e mais garrafas de espumante barato jogadas pelo chão, me recusei a enxergar no episódio algum tipo de lição. Na verdade, estou tentando até agora. 

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