
Publicado na página Aerolândia via Aguanambi, no jornal O Povo.
Rico manancial de plasticidade morfossintática da língua portuguesa, o dialeto cientificamente denominado de "luciobrasileirismo" é velho conhecido dos cearenses. A criançada, os porteiros, os jornalistas, os delegados de polícia, os escritores, os cobradores de ônibus: todos folgam em celebrá-lo. As escolas também, visto que há menos vocábulos no idioma nacional para serem ensinados, o que não quer dizer falta de expressividade. Exemplo: “Fevereiro não tem Carnaval este ano, março todavia compensa, meu bloco vai sair”. O tour de force do fraseado é explosivo. Um sax ao longe pode ser escutado. Ganha-se na economia de cartilhas discentes e no tempo da professorinha das séries iniciais.
Em luciobrasileiro, uma sentença trivialíssima como “Eu me lambuzei todinho comendo tapioca com leite condensado”, apresentada em português vulgar, logo se metamorfoseia em algo do tipo: “Boca oleosa não permito, pinto”. Por sua vez, a frase “O macaco líder do grupo comia banana a valer” é alquimicamente convertida em “Bicho às fartas”. Sem conspurcar a dança lógica da última flor do Lácio, a língua de Safadão e Bilac, Dohan Próprio e Mário de Andrade, os enunciados das composições da mãe nativa ganham frescor e cadência lusitanos. Donde a flagrante potência da modalidade, que se presta tanto ao registro escrito quanto ao falado (ver manhãs de domingo na televisão cearense). Tudo alinhavado num receituário simples, que emula as melhores lições de vida do colunismo social: eliminem-se os supérfluos, exalte-se o ossobuco da existência. Fixe-se no maneirismo sem densidade da casca da pitomba.
Notórios exemplos de construções refogadas no luciobrasileirismo podem dilapidar de um só golpe quaisquer hesitações que ainda restem sobre sua eficiência como ramificação emergente do português moderníssimo. Retirados das páginas do jornal O Povo, onde seu cultor, a respeitadíssima pessoa humana Lúcio Brasileiro, labuta incansavelmente há tanto tempo que seria de todo indelicado perguntar, os torneios de língua constituem raras pepitas do belo escrever e do sofisticado pensar. As luzes desse insidioso e poético versejar florescem em todos os campos da vida. Na etiqueta gastronômica: “Baco & Feijão: não emplaca servir vinho branco com feijoada, e ainda menos, champanha”.
No âmbito social: “Preciso no Estoril, reformado pela prefeita Luizianne Lins, que brindou Iracema com aquela beira-mar de cidade grande”. Na reflexão embevecida de nostalgia: “Quando iniciei minha coluna, a vida estava nos clubes, tanto que, na primeira lista dos Dez Mais, quatro eram presidentes, Ideal, Náutico, Country e Maguary, embora um só bastante merecedor, Manoel Gentil Porto”.
Entretanto, mesmo gozando de virtuosa (e adiposa, convém sublinhar) aceitação entre os círculos bem pensantes do meu e do seu Ceará, a abundante beleza gramatical e sintática do luciobrasileirismo parece não convencer um grupo renitente e demodè de professores de português de cursinho pré-vestibular. Organizados sob a tumultuosa denominação de CAMÕES AGAINS’T THE MACHINE, esses docentes mequetrefes pretendem cassar todo o gracejo e influência alcançados por esse raro dialeto sociobanal nas esferas da alta e da baixa sociedade.
Para tanto, articulam-se com sindicatos, centrais trabalhistas e grêmios estudantis vinculados a partidos de extrema esquerda, cuja ideologia repele prontamente qualquer demonstrativo de genialidade e beleza.
Arautos do obscurantismo, desejosos do retorno à idade das trevas e travas, mal sabem que, noutra ponta desse fio de ourivesaria, uma contra-ação (não confundir com contração) vem sendo gestada. E os resultados já surgem: de tanto pugnarem em propósito da novilíngua brasileira e das riquezas de nossa cultura, parlamentares cearenses conseguiram aprovar proposta de emenda ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que visa a incluir entre as mudanças já amplamente divulgadas pela imprensa as novidades do luciobrasilerismo. Paco rejubila-se.
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