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Prateleiras


O supermercado me interessa. As prateleiras, os caixas, as filas, o carrinho de compras, as revistas presas por elásticos nas gôndolas, os bombons largados em cima de toalhas, as pilhas do tipo AAA, os refrigerantes, os sucos de laranja e as TVs de tela plana, as bicicletas, a borracha dos pneus, os desinfetantes e as sanduicheiras. Tudo me interessa, tudo convoca, e por convocar entendam convidar a que qualquer possibilidade transija e suceda bem diante de nossos narizes.

Tudo poreja, tudo inspira e expira, mas, a um segundo olhar, tudo definha e se esvai. Tudo é fraude, tudo é lama e linguiça toscana. De modo geral, paro de olhar antes de chegar a esse ponto crítico.

Posso parecer decidido, não sou, e desconheço igualmente as razões que me movem até lá e, estando lá, fazem querer permanecer por uma fatia de tempo fora do comum, um estirão de minutos que mesmo a dona de casa mais afetuosa e dedicada julgaria por certo exagerado, visto que há coisas no seu próprio lar que necessitam mais tempo que a admiração estupefata de uma infinidade de objetos e produtos cujos rótulos soam como fachadas de cinemas antigos perdidos nos centros das cidades. “A vida”, dirá essa dona de casa dedicada mas convicta de que o excesso depõe contra nós, “dificilmente poderá dar-se ao luxo de ser assim, gratuita”.

Duvido que cada uma dessas coisas citadas por mim seja realmente suficiente, seja a resposta que procuro, duvido que possam compor, juntas ou separadas, um quadro satisfatório, quando muito apontam um caminho que, se não estou velho e louco, e realmente acredito que ainda não esteja, indica outro caminho e este um quarto ou um quinto e assim por diante, afinal é compreensível, é sempre compreensível supor que um caminho conduza naturalmente e sem grandes interrupções a outro, é um movimento claro, matematicamente provável.

Os supermercados são lugares nada suntuosos, nada interessantes, eles não são: nada românticos, quem de nós alguma vez tratou de acertar por telefone um encontro amoroso rente à seção dos frios? Poucos além de mim, e me custa acreditar que outro haja pedido em casamento sua noiva quando ambos despachavam as compras do mês no caixa destinado a carrinhos com até quinze volumes e que, noutra feita, tenham abertamente paquerado com a moça a quem, instantes atrás, haviam pedido 200 gramas de presunto.

O supermercado é o lugar feito para que nada aconteça, apenas lá podemos caminhar de cabeça baixa por um longo período sem nos importarmos em não parecermos transviados, desviados, extraviados ou qualquer outra denominação que sugira dissonância. Porém, é também ali que a finalidade do projeto original é inadvertidamente desvirtuada.

O que apenas o torna mais interessante.

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