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Saiu ali

VOTO PELO SEXO, SEMPRE

Henrique Araújo
henriquearaujo@opovo.com.br

Marta, ex-atendente de telemarketing, 27, morena, tatuagem na parte interna da coxa esquerda, explodiu na semana anterior à do pleito. Estavam assistindo a um quadro do sabático “Zorra Total”. Espichados na cama, cada um abraçado a um lençol diferente, o dele com figuras geométricas, o dela salpicado de margaridas, quando a mensagem no celular de Antônio fez soar uma guitarra de Neil Young. Era anônima, e dizia: “Vontade danada de estar ctg. novamente. Um bj daqueles, meu carrapicho”.

Antônio é jovem. Tem 22, divide apartamento com Marta há dois anos. Ele paga água e energia, ela faz as compras e cozinha. Ele limpa a casa. Ela organiza a papelada burocrática em pastas – uma para cada área da vida. Ele desenha, ela compõe versinhos que depois lê em recitais da faculdade de Letras, que depois esquece em arquivos de computador. Ele anota nomes de bares num bloco e coleciona cartazes de cinema. Ela sobrepõe marcas de biquíni, guarda fotos de bandas de rock obscuras numa gaveta e rói as unhas como se devorasse dúzias de maçãs envenenadas.

Antônio negou sem ensaios que tivesse qualquer relação com aquela mensagem, de resto bonita, algo romanticamente desesperadora, mas absolutamente extraviada. Marta, que enxerga longe, sequer ouviu as desculpas do companheiro. Ela é mulher bastante.

O fim estava logo ali, e a geminiana não se descabelou, não se enfezou, não subiu pelas paredes – lera numa das revistas do salão onde havia trabalhado por cinco anos que a fêmea do século XXI é pragmática. É um Max Steal em pele de Barbie, um puma atacando de panda. Seu aprendizado incluía reagir a situações de extrema tensão e perigo sem franzir o cenho além do necessário, no que fazia bem, diziam as amigas. Afinal as rugas mais pronunciadas têm origem em brigas conjugais. O bigode chinês é comprovadamente resultado de estresse emocional e não da combinação de sol e excesso de expressividade. Lera na revista. Melhor não arriscar.

O fim era de verdade, e durou um pouco mais de uma semana. No domingo, dia de votação, encontraram-se no apartamento. Era a hora do almoço, e Marta queria perdoar Antônio por duas razões: não tinha vergonha. A segunda: achava cedo para ser pragmática e moderna. Chegara à conclusão de que tinha algum tempo. Enquanto os vizinhos arrumavam-se em comboios dispostos a interferir nos destinos da nação, eles se despiram, deitaram e repetiram o que vinham fazendo constantemente nos últimos anos. Fizeram bem.

O reencontro sufocou qualquer exigência cívica, tornou inválida ou nula qualquer obrigação democrática.

Somente às 18h17 lembraram que não tinham candidato a deputado federal. Mas já não importava. A votação havia se encerrado bem antes disso. O País elegera um candidato cuja plataforma de governo dispensava, entre outras coisas, a obrigatoriedade do voto, mas reafirmava a necessidade de mais sexo no domingo. E nos demais dias da semana também. Novamente sob lençóis diferentes, o dele de figuras geométricas, o dela coalhado de flores amarelas, seguiram desatentos a apuração em todos os estados da federação. Cansados, dormiram antes do resultado final.

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