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DOIS NOMES, DUAS ESCOLAS LITERÁRIAS

EM 2009, DOIS GRANDES NOMES DA LITERATURA NORTE-AMERICANA VÊM À BAILA: EDGAR ALLAN POE, QUE COMPLETOU NO ÚLTIMO DIA 19 DE JANEIRO DOIS SÉCULOS DE NASCIMENTO E 160 ANOS DE MORTE; E O RECLUSO JEROME DAVID SALINGER, 90 ANOS COMPLETADOS EM 1º DE JANEIRO, AUTOR DE O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO

HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA
O POVO

“No futuro”, previu o escritor num de seus contos mais famosos, “talvez se possa encontrar algum intelecto que reduza meu fantasma a um lugar-comum; um intelecto mais calmo, mais lógico e bem menos excitável do que o meu, e que perceberá, nas circunstâncias que pormenorizo com terror, tão somente uma sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais”. Dois séculos após o nascimento de Edgar Allan Poe e 160 anos depois de sua morte, sua obra talvez não tenha deparado com um intelecto que a ponha inteiramente varrida de qualquer vestígio de mistério e terror. Desafiador, o trecho acima pertence ao conto O gato preto, short story incluída nas Histórias Extraordinárias. O livro reúne grande parte da novelística do poeta, crítico literário e jornalista norte-americano, morto em condições absolutamente misteriosas. A história é conhecida: era 1849 quando o corpo do escritor foi encontrado numa rua de Baltimore. Poe tinha 40.

Tinha 40 anos, nenhum dinheiro no banco, muitos poemas e contos publicados em revistas e uma vida desregrada. Basicamente, largara tudo – estudos, emprego estável, relações duradouras – para jogar, escrever e beber. Noutro conto (O homem da multidão) - o mesmo filmado pelo cineasta Federico Felini, em 1968, num trabalho que reuniu outros dois diretores convidados para adaptar histórias de terror do autor de O corvo -, Poe escreve: “Homens morrem à noite em seus leitos, agarrados às mãos de confessores fantasmais; morrem com o desespero no coração e um aperto na garganta ante a horripilância de mistérios que não consentem ser revelados”. De acordo com o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), grande incentivador de Poe na Europa e tradutor de sua obra, a literatura extraordinária do único poeta romântico do outro lado Atlântico trafegava em ritmo e sentido incomuns. Para Baudelaire, “nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza; os ardores de curiosidade da convalescença; o morrer das estações sobrecarregadas de esplendores enervantes, os climas quentes, úmidos e brumosos”.

Outros nomes famosos despontam entre os admiradores de Poe: Henry James, Kafka, Thomas Mann, Arthur Conan Doyle, Julio Verne, Nabokov, Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Machado de Assis. No Brasil, Histórias extraordinárias ganhou inúmeras traduções ao longo do tempo. Além de Machado, Clarice Lispector e José Paulo Paes, por exemplo, verteram os contos de horror para o português.

O pai de Holden Caufield


Setenta anos após a morte de Edgar Allan Poe numa rua fria dos Estados Unidos, em 1849, outro grande nome da literatura norte-americana nascia: Jerome David Salinger, autor do clássico O apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye). Sem alardes, sem festas ou coletivas de imprensa, no último dia 1º de janeiro, o romancista completou nove décadas de vida. Recluso, Salinger tem evitado a imprensa há pelo menos 40 anos. De lá para cá, não publicou nada, não disse uma palavra que fosse a um mísero jornalista. Entretanto, seu único romance fez o caminho inverso. Desde sua publicação, em 1951, O apanhador no campo de centeio vem arregimentando legiões de fãs incondicionais no mundo inteiro. Virou símbolo, febre, mania, doença contagiosa passada de geração em geração. Os motivos são os mais bobos: num modo despojado, tipicamente juvenil, Salinger contou as desventuras do adolescente Holden Caufield, recém-expulso de uma das melhores escolas da Pennsylvania, o Internato Pencey, instituição destinada aos meninos ricos da cidade, feita exclusivamente para campeões. Narrada em primeira pessoa, a historinha acompanha os passos desastrados, as mentiras compulsórias, o desencanto, o tédio, a inocência e a rebeldia que se seguem a mais uma saída forçada de Holden. O menino viaja da escola em direção à casa dos pais, em Nova York. No meio do caminho, Holden encontra algum tempo para fazer uma ligação. Do outro lado da linha, Phoebe Caulfield, a irmã mais nova, uma espécie de redenção, o aguarda.

SERVIÇO:

Histórias extraordinárias (Companhia das Letras, 269 páginas. R$ 20), de Edgar Allan Poe. Tradução de José Paulo Paes.

O apanhador no campo de centeio (Editora do Autor. Preço médio: R$ 40), de J. D. Salinger.



PERFIL

EDGAR ALLAN POE

Nasceu em Boston, Estados Unidos, em 19 de janeiro de 1809. Órfão, foi criado por um rico mercador, de quem herdou o sobrenome. Poeta, contista, crítico literário, é responsável pelo surgimento da literatura policial. Ente os contos mais famosos de Poe, estão Os assassinatos da rua Morgue, O escaravelho de ouro e O gato preto. Poe foi encontrado morto numa rua de Baltimore, em 1849. A causa da morte é ignorada até hoje. No Brasil, seus livros foram traduzidos por nomes como Machado de Assis, Clarice Lispector e José Paulo Paes. Sua literatura influenciou autores como Jorge Luis Borges, Kafka e outros.


PERFIL

JEROME DAVID SALINGER

Filho de pai judeu e mãe cristã, nasceu em 1º de janeiro de 1919, em Nova York. É um dos mais importantes nomes da literatura norte-americana deste século. Publicou seu único romance, O Apanhador no Campo de Centeio, em 1951.

Matricula-se em escolas públicas e, em seguida, em uma academia militar. Passa pouco tempo no Ensino Superior. Enquanto freqüenta a Universidade de Columbia, por exemplo, escreve os seus textos, contos publicados em revistas norte-americanas. Entre 1942 e 1946, ingressa no serviço militar do seu país e participa da II Guerra Mundial, experiência que marca sua vida e obra. Foi colaborador da revista The New Yorker. Escreve também Franny and Zooey (1961), Pra Cima com a Viga, Moçada (1962) e Seymor: Uma Introdução (1963). No último dia 1º de janeiro, J. D. Salinger completou 90 anos.

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