
O LIVRO DOS GRANDES ÓDIOS
CONTROVERSO, O ESCRITOR MEXICANO FERNANDO VALLEJO USA A VERBORRAGIA E O PANFLETARISMO COMO INGREDIENTES DE UM ROMANCE INDIGESTO
HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA O POVO
Vencedor em 2003 do prêmio mais importante em língua hispânica, o Rómulo Gallegos, O despenhadeiro, do colombiano naturalizado mexicano Fernando Vallejo, 66 anos, é um romance de feição aberta, explícita e feroz. Seu narrador, cuja voz se confunde dentro e fora do romance com a do próprio autor, leva 169 páginas a desfiar um rosário de imprecações contra a Colômbia, a igreja e, por tabela, o Papa, os políticos, as mulheres que assumiram o poder recentemente naquele país, o narcotráfico, os comunistas, a contemporaneidade, a Internet, os poetas, os rios. Por fim, e não menos raivosamente, o fluxo intempestivo de Vallejo volta-se contra a própria família. Para ele, os genes dos Rendones deveriam ser proibidos por lei de se reproduzirem. Porque, bem medidos, são tão nocivos quanto o vírus HIV que matou o irmão Darío e mantêm índices de infestação espetaculares.
Em resumo, a narrativa de Vallejo parte do reencontro do narrador – o primogênito de uma leva de vinte irmãos – com a sua família, os Rendones. No México, ele recebe a notícia: seu irmão Darío está morrendo. Seca, sem mais lamentações. Após longa temporada naquele país, interrompida apenas quando ocasiões semelhantes ensejavam um retorno forçado à Colômbia – meses antes, o próprio pai havia morrido de câncer -, o narrador viajava novamente à terra natal, que, nesse ínterim, substituíra o pó preto (café) pelo branco (a cocaína), sem muito sucesso. O despenhadeiro é “um relato de desgraças” que, a partir de recuos e avanços no tempo, o narrador opera, sempre empurrado por uma realidade de desmantelo, de mazelas, seja familiares, seja nacionais. Nele, as disfunções de um encontram guarida – ou justificativa – nas do outro.
Em casa, a família arruinada: a Louca, mãe do personagem, segue ordenando e transformando tudo em que toca numa grande coisa sem-serventia. O Grande Cretino, o irmão caçula, não respeita sequer a morte que se avizinha, pondo sambas brasileiros para tocar na sala enquanto, no jardim, Darío agoniza numa rede, acelerando sua morte com pinga e maconha. O pai safara-se dessa imundície meses antes, livrando-se de descobrir, no fim da vida, que um dos filhos contraíra Aids. O câncer de fígado o apanhou antes da notícia. Da extensa safra de irmãos, o narrador também celebra o suicídio de Manuelito. O jovem havia sabido dar um basta em toda essa canalha. O próprio narrador só não tomaria atitude semelhante porque já se considerava morto. Morto pela mãe, a Louca, que, em criança, distribuía entre os filhos adjetivos carinhosos como “fis-da-puta”. Morto pela Colômbia, um país de merda que sequer consegue vencer uma Copa do Mundo.
Os níveis autobiográficos contidos em O despenhadeiro não autorizam a troca pura e simples do nome do narrador pelo de Vallejo. Vira e mexe, porém, ambos – escritor e personagem – estouram na imprensa. Um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, Vallejo esteve no Brasil. Disse cobras e lagartos. Sua estadia no País coincidiu com a libertação da franco-colombiana Ingrid Betancourt, candidata à presidência em 2002. Nesse mesmo ano, Betancourt seria aprisionada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em entrevista a O Globo, Fernando Vallejo declarou que o assunto não lhe interessava, que ela (Betancourt) era feia. “Uribe (o presidente Álvaro Uribe) também, os dois. As Farcs são um bando de narcotraficantes assassinos. E a Ingrid buscou seu seqüestro, foi à região da guerrilha, no centro das Farc contra todas as advertências por sua segurança. Ela conseguiu o que estava buscando, estar nas manchetes de todos os jornais.”
À página 85 de O despenhadeiro, o narrador revela: “As lembranças são um peso besta, doutor, um fardo estúpido. E o passado, um cadáver que tem de ser enterrado rapidinho ou então a gente apodrece em vida com ele”. O romance de Vallejo, que é formado em biologia e filosofia e dirigiu três filmes antes de se dedicar inteiramente à literatura, combina o “relato de desgraças” com o “tratado de teologia”. Nele, santos e homens são dessacralizados. As desgraças são essa espécie de agentes que nivelam as coisas. Ao contrário do que se possa imaginar, sai-se da leitura não amargurado, mas preocupado. Porque as angústias do personagem de Vallejo não são pura ficção, seus medos e ódios não foram tomados do vácuo social. Resultam da combinação de algumas variáveis altamente voláteis, como a violência e a corrupção. De algum modo, o terror que essa verborragia maledicente inspira tem sustentação na realidade.
SERVIÇO:
O despenhadeiro, de Fernando Vallejo. Alfaguara, 169 páginas. Preço sugerido: R$ 28,90.
CONTROVERSO, O ESCRITOR MEXICANO FERNANDO VALLEJO USA A VERBORRAGIA E O PANFLETARISMO COMO INGREDIENTES DE UM ROMANCE INDIGESTO
HENRIQUE ARAÚJO>>>ESPECIAL PARA O POVO
Vencedor em 2003 do prêmio mais importante em língua hispânica, o Rómulo Gallegos, O despenhadeiro, do colombiano naturalizado mexicano Fernando Vallejo, 66 anos, é um romance de feição aberta, explícita e feroz. Seu narrador, cuja voz se confunde dentro e fora do romance com a do próprio autor, leva 169 páginas a desfiar um rosário de imprecações contra a Colômbia, a igreja e, por tabela, o Papa, os políticos, as mulheres que assumiram o poder recentemente naquele país, o narcotráfico, os comunistas, a contemporaneidade, a Internet, os poetas, os rios. Por fim, e não menos raivosamente, o fluxo intempestivo de Vallejo volta-se contra a própria família. Para ele, os genes dos Rendones deveriam ser proibidos por lei de se reproduzirem. Porque, bem medidos, são tão nocivos quanto o vírus HIV que matou o irmão Darío e mantêm índices de infestação espetaculares.
Em resumo, a narrativa de Vallejo parte do reencontro do narrador – o primogênito de uma leva de vinte irmãos – com a sua família, os Rendones. No México, ele recebe a notícia: seu irmão Darío está morrendo. Seca, sem mais lamentações. Após longa temporada naquele país, interrompida apenas quando ocasiões semelhantes ensejavam um retorno forçado à Colômbia – meses antes, o próprio pai havia morrido de câncer -, o narrador viajava novamente à terra natal, que, nesse ínterim, substituíra o pó preto (café) pelo branco (a cocaína), sem muito sucesso. O despenhadeiro é “um relato de desgraças” que, a partir de recuos e avanços no tempo, o narrador opera, sempre empurrado por uma realidade de desmantelo, de mazelas, seja familiares, seja nacionais. Nele, as disfunções de um encontram guarida – ou justificativa – nas do outro.
Em casa, a família arruinada: a Louca, mãe do personagem, segue ordenando e transformando tudo em que toca numa grande coisa sem-serventia. O Grande Cretino, o irmão caçula, não respeita sequer a morte que se avizinha, pondo sambas brasileiros para tocar na sala enquanto, no jardim, Darío agoniza numa rede, acelerando sua morte com pinga e maconha. O pai safara-se dessa imundície meses antes, livrando-se de descobrir, no fim da vida, que um dos filhos contraíra Aids. O câncer de fígado o apanhou antes da notícia. Da extensa safra de irmãos, o narrador também celebra o suicídio de Manuelito. O jovem havia sabido dar um basta em toda essa canalha. O próprio narrador só não tomaria atitude semelhante porque já se considerava morto. Morto pela mãe, a Louca, que, em criança, distribuía entre os filhos adjetivos carinhosos como “fis-da-puta”. Morto pela Colômbia, um país de merda que sequer consegue vencer uma Copa do Mundo.
Os níveis autobiográficos contidos em O despenhadeiro não autorizam a troca pura e simples do nome do narrador pelo de Vallejo. Vira e mexe, porém, ambos – escritor e personagem – estouram na imprensa. Um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, Vallejo esteve no Brasil. Disse cobras e lagartos. Sua estadia no País coincidiu com a libertação da franco-colombiana Ingrid Betancourt, candidata à presidência em 2002. Nesse mesmo ano, Betancourt seria aprisionada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em entrevista a O Globo, Fernando Vallejo declarou que o assunto não lhe interessava, que ela (Betancourt) era feia. “Uribe (o presidente Álvaro Uribe) também, os dois. As Farcs são um bando de narcotraficantes assassinos. E a Ingrid buscou seu seqüestro, foi à região da guerrilha, no centro das Farc contra todas as advertências por sua segurança. Ela conseguiu o que estava buscando, estar nas manchetes de todos os jornais.”
À página 85 de O despenhadeiro, o narrador revela: “As lembranças são um peso besta, doutor, um fardo estúpido. E o passado, um cadáver que tem de ser enterrado rapidinho ou então a gente apodrece em vida com ele”. O romance de Vallejo, que é formado em biologia e filosofia e dirigiu três filmes antes de se dedicar inteiramente à literatura, combina o “relato de desgraças” com o “tratado de teologia”. Nele, santos e homens são dessacralizados. As desgraças são essa espécie de agentes que nivelam as coisas. Ao contrário do que se possa imaginar, sai-se da leitura não amargurado, mas preocupado. Porque as angústias do personagem de Vallejo não são pura ficção, seus medos e ódios não foram tomados do vácuo social. Resultam da combinação de algumas variáveis altamente voláteis, como a violência e a corrupção. De algum modo, o terror que essa verborragia maledicente inspira tem sustentação na realidade.
SERVIÇO:
O despenhadeiro, de Fernando Vallejo. Alfaguara, 169 páginas. Preço sugerido: R$ 28,90.
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