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Bom, prefiro a cinza

Melhor quando não se pode esperar qualquer coisa. E ela vem. Não. Ela, qualquer coisa.

No domingo costumo acordar com o cheiro do café esfriando na xícara e os gritos do Galvão Bueno narrando a largada da F-1. Definitivamente, gosto dos domingos. Adio até o último minuto as coisas que, no sábado, foram empurradas para o dia seguinte. Ou seja, para o domingo. Portanto, esse dia, a rigor, o primeiro da semana, é dia de adiamentos incessantes. Sucessivos. O que tenho de fazer agora jogo para depois. Filosofia de vida levada a extremos surpreendentes.

ASSIM VOU ME ESTREPANDO.

Se gosto dos sábados? Sim, também. De modo geral, prefiro os dias da semana útil. Não entendo essas coisas, apenas que prefiro sair de casa para trabalhar na segunda-feira de manhã a ter de ficar em casa — ou sair, dá no mesmo — no sábado. Domingo não tiro os pés de casa. A não ser que tenha de ir pegar o aluguel do outro lado da cidade. Se tiver, jogo a mochila nas costa, subo na 55 na Bezerra de Menezes e sacolejo dentro dela durante cinqüenta minutos. Em menos de dez minutos estarei de volta. Antes, compro Fandangos e cerveja na mercearia da esquina. Ligo o mp3 e encho os ouvidos de Strokes ou qualquer coisa que esteja ali, flutuando entre os álbuns.

ONTEM MATEI MAIS ZUMBIS. Escolhi um modo divertido de jogar. Nele começo com uma metralhadora cujas munições não se acabam nunca. Como sei disso? Se aperto o botão que abre a tela de itens coletados ao longo da jornada, está lá: um oito na horizontal. Posso atirar à vontade. Onde antes passava correndo, aos atropelos, o coração saltando da caixa, agora me detenho. Olho dentro dos olhos brancos e dilatados dos mortos-vivos. E disparo. Uma, duas, três, quatro rajadas consecutivas de balas. Eles morrem de novo. Vão definitivamente para o inferno.

Na mansão, as coisas ficam ainda mais interessantes. Sabem aquela criatura de língua comprida e olhos esbugalhados que baba e espuma no corredor e, como se não bastasse, ainda sobe pelas paredes quando não está satisfeita com a gente (favor não confundir com a sogra)? Pois é. No modo mais divertido, a briga não dura três ou cinco segundos. Logo ela está esparramada no chão, agonizante.

GOSTO DE PROCURAR PALAVRAS. Estive fazendo isso na última meia hora. Encontrei algumas legais. “Nenhures” é a melhor. “Litosfera” também é boa.

“Nenhumamente”? Esquisita.

Vou confessar algo: ontem vi “Donnie Darko”. Bom, a sessão de cinema em casa terminou às 2h30 da madrugada. Ao lado, minha esposa dormia a sono solto. Ainda pensei em acordá-la e perguntar: “Você também quer ir ao banheiro? É que estou indo na direção de lá. Podemos ir juntos”. Na hora, tive vergonha. Vergonha por estar sentindo medo do coelho com antenas que aparece no filme. E da Vovó Morte. Principalmente da Vovó Morte. Porque ela lembra a velha que morava ao lado da casa da minha avó. Era biruta. A velha, não a minha avó — que nem era tão velha assim. O nome da anciã era estanho para uma criança de sete anos e mais ainda para um adulto de vinte e poucos: Argentina. Brincávamos de atravessar a sua casa correndo do quintal até o outro lado da rua. No trajeto, víamos Argentina agachada num dos cantos, fazendo cachos nas pontas dos cabelos esbranquiçados e soltando fumaça de um cachimbo. POR TODOS OS LADOS, ROUPAS IMUNDAS E FEZES.

ONTEM, ALÉM DE FRANK, O COELHO ANTENADO, via a Vovó Morte por todos os lados da casa. Por pouco não vetei a ida ao banheiro. Custaria tanto assim segurar o jato de mijo até as cinco ou seis da manhã? Acho que sim. No final, consegui vencer o medo. Venci o medo. Que Donnie me perdoe, mas consegui vencer o medo. Agradeço a Jim, o pornógrafo infantil.

Agora leio matéria publicada na “Folha de S. Paulo” sobre grampos telefônicos. Sobre espionagem. Depois corrijo resenhas. Depois enrolo mais um pouco vendo alguma coisa na televisão. Depois assisto um filme. Depois como. Depois é segunda-feira.

VOCÊS SABEM O QUE É BOM PARA ESTACAR ARROTOS INCONTINENTI? É certo dizer “arrotos incontinenti”? Ia dizer qualquer coisa, mas acabei esquecendo...

Sim, ao longo da semana verei finalmente a primeira temporada de “Lost”. Adoro chegar atrasado no mundo das novidades. Quando comprei meu Super Nintendo, a onda era o 3DO, da Panasonic. Por algum motivo, o console acabou não vingando. Depois vieram Nintendo 64 e PlayStation. Eu continuei jogando “Street Fighter”.

BOB AINDA ME ENCARA TODA VEZ QUE ENTRO EM CASA. Fica parado no portão. Percebo sua presença com o canto dos olhos. Na janela, separados por uma grade de ferro e uma porta devidamente trancadas, volto-me para ele e digo: “Sorte a sua ter acabado de escovar os dentes e fazer as unhas. Do contrário, dar-lhe-ia umas boas mordidas e arranhões”. Bob não parece nem um pouco convencido da verdade que essas palavras talvez encerrem. A seu modo, ri-se. Caninamente, zomba da minha covardia, joga o meu psicológico na sarjeta. Bob daria um ótimo jogador de xadrez.

QUE FAZER COM BOB?, grito para a escuridão da noite. Apenas um sapo adolescente responde. Como sei que é adolescente? Suspeito apenas.

Até. Volto na semana. Terça? Quinta? Não sei.

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