Pular para o conteúdo principal

O corpo morto-vivo

 

De novo me vejo obrigado a encarar o corpo do ex-presidente, suas marcas e dobras, o manquejar desnudo por corredores hiperiluminados de hospitais, numa litania de gestos conhecida porque se arrasta desde 2018, quando do episódio da facada.

O corpo já então como uma gramática política, senha para atuação e princípio de performatividade – a partir de agora, o território é o da disputa simbólica pela posse da verdade.

O corpo-passaporte, que fala pelo falante, que dispensa a vocalização: quando toda palavra é insuficiente para atenuar-lhe os problemas (jurídicos, policiais etc.), quem assume o protagonismo é esse personagem enfermo.

Ninguém há de negar que o corpo de Bolsonaro se impõe como signo de força, que sua presença nas redes e nos jornais, nas manchetes e nas notícias, exposto como item do receituário populista, como peça de defesa, é parte da estratégia de agenciamento dos temas de seu campo: um mix de messianismo com prosperidade e profecias autorrealizáveis.

Sontag escreveu num livro sobre a morte: “Podemos nos sentir obrigados a olhar fotos que recordam graves crimes e crueldades”, ou seja, aquele sentimento do qual não se escapa e para o qual toda a atenção se volta.

Que atrocidades esse corpo revela? Os elementos cicatriciais, a pele costurada, o intestino se desfazendo por obra do golpe de arma branca, as vísceras contidas com esforço e perícia dos profissionais que o assistem, o trabalho sem fim da recuperação de uma condição impossível de se alcançar, visto que o estrago parece ter sido considerável.

Enfim, toda uma operação para impedir que o de dentro do ex-chefe se mostre em público, que se rompa essa membrana mais delgada entre os conteúdos da digestão e o mundo exterior, pelos quais ele se tornou conhecido, que ocuparam tanto tempo de sua atividade como gestor verborrágico e coprolálico.

Nenhum incumbente antes dele explorou tanto assim o corpo, seja no poder ou fora, antes ou depois, exibindo-o como mercadoria.

O corpo adoentado, as fotografias que o flagram em macas hospitalares, sua história confundindo-se com a história do corpo acamado, sob cuidados médicos, cercado em oração, objeto de adoração e penitências alimentadas pelos mais próximos e por ele mesmo.

Quanto a isso, note-se que, ainda no pré-cirúrgico, chegou a disparar mensagem de cunho redencionista na qual faz menção à eternidade, num tom já desapaixonado que acentua o descolamento de interesses mais imediatos. Esse líder carismático prestes a ascender até assustou sua gente, entre familiares e aliados.

Nada disso é casual, no entanto. Penso que não, o que não significa que atribuo a tentativa de assassinato a uma conspiração autoinfligida com a finalidade de conquista da cadeira de mando. Longe disso.

O que se seguiu, entretanto, é pura artesania e cálculo de posição que combinam, em meio à gravidade delicada das intervenções, um senso de oportunidade com a curadoria do “corpo-vitrine”, com o qual os seguidores do ex-presidente buscam o gozo da comunhão, numa mistura de religião e reality.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trocas e trocas

  Tenho ouvido cada vez mais “troca” como sinônimo de diálogo, ou seja, o ato de ter com um interlocutor qualquer fluxo de conversa, amistosa ou não, casual ou não, proveitosa ou não. No caso de troca, porém, trata-se sempre de uma coisa positiva, ao menos em princípio. Trocar é desde logo entender-se com alguém, compreender seu ponto de vista, colocar-se em seu lugar, mas não apenas. É também estar a par das razões pelas quais alguém faz o que faz, pensa o que pensa e diz o que diz. Didatizando ainda mais, é começar uma amizade. Na nomenclatura mercantil/militar de hoje, em que concluir uma tarefa é “entrega”, malhar é “treinar”, pensar na vida é “reconfigurar o mindset” e praticar é “aprimorar competências”, naturalmente a conversa passa à condição de troca. Mas o que se troca na troca de fato? Que produto ou substância, que valores e capitais se intercambiam quando duas ou mais pessoas se põem nessa condição de portadores de algo que se transmite? Fiquei pensando nisso mais te...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...