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Chamada a cobrar



Tinha essa cara engraçada de quem brigou com o tempo e depois nunca mais fizeram as pazes, o tempo rejeitado, ele encurralado.

Essa cara engraçada não tinha tanta graça quando, lá pelo meio da noite, umas três horas, ele olhava e puta merda, batia esse desespero que bate de madrugada quando nada acontece e tudo até ali foi um borrão, então é melhor ir embora, e o taxista de cavanhaque abre a porta do carro e pergunta pra onde é, ele fica na dúvida, não sabe se liga pro celular, será que ele tá acordado naquela hora?, bom, vai em frente aí que digo já, sopra, o taxista acelera, acelera, o carro vai indo e indo, as luzes dos postes formam uma nebulosa fantástica, na esquina uma travesti mostra os peitos portentosos, o carro segue, vai em frente. 

Já sabe onde é?, insiste o motorista, ainda não mas digo já, está bêbado mas não o suficiente pra não ter percebido o muxoxo do homem do cavanhaque, então ele respira fundo e tenta uma, duas, três vezes, quatro, cinco e seis vezes, sete, oito e nove vezes.

Para na décima, o táxi em frente. Pensa em tudo, pensa em voltar pra casa, pensa nele mesmo abrindo a geladeira e tirando a caixa de suco de laranja e esvaziando a caixa e comendo um sonho de valsa que ficou na bandeja dos ovos.

O carro em frente. Continuo?

Até que avistam o mar e o taxista se preocupa, bom, já estamos perto, continuo?, sim, só mais um segundo, responde.

Cinco minutos depois sobem o calçadão e o carro dá um salto, ele bate a cabeça no teto e quase fica sóbrio, mas não o bastante pra voltar pra casa, as ondas quebram a dez metros, os pneus afundam um pouco na areia, o motorista engata a marcha de força, seguem em frente.

É que o telefone dele não atende.

Tudo bem, chefe, o mar vai engolir a gente, então seja rápido.

Só mais cinco minutos.

Não houve tempo, a grande onda, aquela que ninguém acreditava que um dia viria, cobriu tudo no exato instante em que alguém disse “não me liga nunca mais".

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